27 ago 2011

Vivamos na eficiência pelo Reino de Deus

O texto de hoje versa sobre os empregados e os talentos. No tempo de Jesus, um talento era uma soma considerável de dinheiro e hoje pode ser interpretado em termos de dons ou carismas recebidos de Deus.

O trecho demonstra que o importante é arriscar-se e lançar-se à ação em prol do crescimento do Reino de Deus, para que os dons que recebemos de Deus possam crescer e se frutificar. De forma alguma se deve interpretar o texto ao “pé da letra”, como se tratasse de investimentos e lucros financeiros, pois o texto é uma parábola, ou seja, uma comparação usando imagens e símbolos conhecidos.

Mateus acaba de falar da vinda futura do Filho do Homem como juiz, e a continuação nos diz quais são as atitudes adequadas diante dessa vinda, a saber: a vigilância na parábola das dez virgens e o compromisso da caridade na parábola dos talentos. A parábola dos talentos é, neste contexto interpretativo, um elogio do compromisso, da efetividade, do trabalho, do rendimento. Poderá ser aplicada com muito proveito ao trabalho, à profissão e às realidades terrestres ou compromisso secular.

A eficiência aceita – e até recomendada pelo Evangelho – é a eficiência “pelo Reino”, a que está posta a serviço da causa da solidariedade e do amor. Não é a eficiência do que busca aumentar a rentabilidade, ou a do que procura conquistar mercados, ou a do que procura lucros fantásticos por inversões especulativas do capital.

A eficiência pela eficiência não é um valor cristão, nem sequer humano. Talvez seja certo que o capitalismo, sobretudo na sua expressão selvagem atual, seja “o sistema econômico que mais riqueza cria”, mas não é menos certo que o faz aumentando simultaneamente o abismo entre pobres e ricos, a concentração da riqueza à custa da expulsão do mercado de massas crescentes de excluídos. O critério supremo, para nós, não é uma eficiência econômica que produz riqueza e distorce a sociedade e a faz mais desequilibrada e injusta. Não só de pão vive o ser humano. De maneira cristã, não podemos aceitar um sistema que a favor do crescimento da riqueza sacrifica a justiça, a fraternidade e a participação de massas humanas. Colocar a eficiência por cima de tudo isto é uma idolatria, a idolatria do culto do dinheiro, verdadeiro deus neoliberal.

Não é pois que não queiramos ser eficientes, competentes, e que não sejamos partidários da maior eficácia no serviço do Reino, assim como a competência e a qualidade total no serviço ao Evangelho.

Oremos constantemente e peçamos a Deus, nosso Pai, que Ele nos mostre o talento que cada um tem. Esse talento que encontramos é sinal que o Espírito de Deus Criador da vida habita em nós. E não basta encontrar esse talento. É necessário partilhá-lo, abrir mão dele, e não o manter bem fechado na nossa mão. Abrir mão dele, partilhá-lo para que, quem tem esse talento viva verdadeiramente, mas também leve a vida aos outros para que eles também possam descobrir os talentos que têm e, assim, possam começar ou recomeçar a viver.

Jesus é vida, é luz. “Eu sou a luz do mundo”; “Eu vim para que tenham vida”. Não deixemos que o mundo fique sem luz e sem vida. Ousemos – nós que temos fé e esperança – que um dia o Senhor há-de voltar, ousemos levar essa luz ao mundo e essa vida, partilhando os nossos talentos para que eles dupliquem sempre. Para que, quando o Senhor voltar, não encontre ninguém adormecido ou morto, envolvido pela escuridão absoluta, mas sim que encontre todos despertos, bem vivos envoltos numa luz que nunca se apaga.

Que a salvação que um dia nos tocou não fique encerrada em nós, pois o mundo, a vida, precisam dos nossos talentos. Ousemos partilhá-los com os outros para que todos tenham vida e a tenham em abundância.

Padre Bantu Mendonça

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