28 fev 2010

Jesus transfigurado: perspectiva da vitória

Já chegamos à segunda etapa de nossa subida à festa pascal. A primeira leitura  de hoje nos apresenta a fé com a qual Abraão recebe a promessa de Deus e assim é considerado justo pelo Senhor. Mas o tema que retém nossa atenção está no Evangelho de hoje: a visão da fé que descobre o brilho divino no rosto de Jesus Cristo.

No Evangelho, Lucas nos conta como Jesus foi orar no monte, levando consigo Pedro, Tiago e João e, de repente, ficou transfigurado diante dos olhos deles. Cristo pareceu-lhes envolto de glória, acompanhado por Moisés (a Lei) e Elias (os Profetas). Falavam com Ele sobre seu “êxodo” em Jerusalém, onde iria enfrentar a condenação e a morte. No momento em que despontava o conflito mortal, Deus mostrou aos discípulos a face invisível de Jesus, o aspecto glorioso do Senhor.

Na segunda leitura, Paulo anuncia que Cristo nos há de transfigurar conforme a Sua existência gloriosa. Todos nós somos chamados a ser filhos de Deus. Nosso destino verdadeiro é a glória que Deus nos quer dar. Ora, para chegar lá devemos – como Jesus – iniciar nosso “êxodo”, nossa caminhada da fé e do amor fraterno, comprometido com a prática da transformação. Isso nos pode levar a galgar o calvário, como aconteceu ao Senhor. O caminho é árduo e as nossas forças parecem insuficientes. Às vezes parece que não existe perspectiva de mudança. Uma sociedade mais justa e mais fraterna parece sempre mais inalcançável. Mas assim como os discípulos de Jesus, pela sua transfiguração no monte, puderam entrever a glória no fim da caminhada, assim sabemos nós que a caminhada da cruz é a caminhada da glória.

Antes de ser desfigurado no Gólgota, o verdadeiro rosto de Cristo foi transfigurado. Revela, no monte Tabor, Seu brilho divino. Para a fé, os rostos dos nossos irmãos, explorados e pisoteados, brilham como rostos dos filhos de Deus. Apesar da desfiguração produzida pela miséria, desigualdade, exclusão, o brilho divino está aí.

Se nós precisamos realizar uma mudança política, econômica e cultural, a mudança radical é a que Deus opera quando torna filho Seu aquele que nem figura humana tem. A consciência disso é que nos vai tornar mais irmãos e, daí, mais empenhados em criar uma sociedade digna da glória de Deus, que habita em nossos irmãos excluídos.

O que transparece na glorificação de Cristo não é apenas a Sua própria vitória em Jerusalém, mas o nosso destino final. Os apóstolos não entenderam isso; queriam construir no monte Tabor três tendas para permanecer com Jesus na Sua glória. Ainda não sabiam que o caminho da Ressurreição passava pela Paixão. E também não sabiam que eles mesmos deveriam seguir este caminho até o fim, para chegar à sua vitória e consumação na glória.

Deus dá sinais para que acreditemos. Contudo, este sinais não são a plena visão, pois, se o fossem, já não precisaríamos acreditar. Assim fez o Todo-poderoso também com Abraão. Este tinha assumido sua caminhada na obediência na vida da fé, mas não tinha descendência. O Senhor, então, lhe jurou que lhe daria uma [descendência] e ele acreditou, o que lhe foi imputado como justiça. O sinal da promessa é um sacrifício, mas o “trabalho” não é fácil: os urubus estão aparentemente mais interessados nas carnes recortadas do que Deus, e Abraão tem que esperar, cansado, o pôr-do-sol e a escuridão, para ver o Senhor passar como um fogo devorador entre os pedaços da vítima. Nesse momento, o Altíssimo faz aliança com Abraão.

Que Deus nos alimente com Sua Palavra, para que, purificado nosso olhar de fé, nos alegremos com a visão de fé.

Padre Pacheco

Comunidade Canção Nova

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