18 Feb 2010

Eis a vida e a morte: escolha a vida.

Iniciamos o tempo quaresmal; tempo de “quarenta dias”, ou seja, tempo favorável de conversão. Muito mais que exatos quarenta dias – no caso da Quaresma – o número quarenta, na Sagrada Escritura, possui um sentido muito maravilhoso e bonito: tempo favorável, por iniciativa e graça de Deus, tempo de caminhada, tempo de crescimento na experiência com o Senhor.

A primeira leitura de hoje apresenta um exemplo maravilhoso do que seja este tempo favorável; o povo encontra-se no deserto, rumo à Terra Prometida. O deserto – muito mais que um espaço físico e um lugar – é o ambiente (primeiramente falando) da não relação com Deus. Todavia, o Senhor vai – por pura iniciativa e compaixão – ao encontro do povo e lhe propõe a “graça” e a “desgraça”; a graça vem de Deus e se dá na alma que se coloca a fazer a vontade d’Ele, livremente. A desgraça – que não vem do Senhor – acontece, como fruto do mau uso da liberdade, fazendo a opção pela não vontade de Deus.

O seguimento de Jesus consiste em pegarmos a nossa cruz a cada dia e irmos na passada de Jesus. Não é fácil conformarmos a nossa vida à vida de Cristo. Trazemos dentro de nós – fruto do pecado original – uma espécie de rebeldia, por meio da qual, muitas vezes, não queremos a vontade de Deus, mas a nossa. A maior dificuldade no seguimento de Nosso Senhor Jesus Cristo não está  em nossas limitações e misérias, mas sim, no fato de termos que imitar o Mestre, ou seja, assim como Ele deu a  vida por amor, da mesma forma temos de entregar a nossa vida. Quem quiser salvar a vida vai perdê-la, mas quem perdê-la pela causa de Jesus, esse a salvará.

Morrer a cada instante para que o outro tenha vida… Morrer a cada instante para que meu irmão tenha a preferência em tudo… Morrer a cada instante para que meu irmão tenha sempre a oportunidade de ser servido por mim, quando a mim só me cabe servir. Isso é dureza! Não é fácil ser santo; não é fácil carregar a cruz. Mas onde se encontra a dificuldade por excelência?

Infelizmente, devido ao pouco contato que, muitas vezes, temos com os grandes clássicos da vida dos santos, especialmente os místicos, não mergulhamos numa vida sobrenatural. O que quero dizer com isso? Quero dizer que perdemos – ou nunca tivemos – a capacidade de ver Deus através das coisas e nas pessoas, a começar por aquelas que mais próximas de nós estão. Só conseguiremos entregar a nossa vida para Deus  e para os irmãos se desenvolvermos a capacidade de ver o Senhor neles [irmãos] e através deles. Enquanto eu estiver preso em mim, no meu egoísmo, na superficialidade da minha vida e da minha existência, tanto menos conseguirei ver Deus e percebê-Lo no outro.

Quantas preocupações com o ter, com o poder e com o prazer! Quanta futilidade! Quanta pobreza espiritual! Isso em cada um de nós. Fomos tirando a nossa esperança das realidades transcendentes – do céu – e a fomos transferindo para as realidades terrenas, para as coisas e para as pessoas. Oh, profunda miséria e decadência!

Jesus, frente a esta tomada de decisão, nos propõe uma perguntinha: “Com efeito, de que adianta a um homem ganhar o mundo inteiro, se se perde e se destrói a si mesmo?” Quantos encontram-se em profundo processo de destruição – não por serem ruins; muitíssimo pelo contrário, pois foram criados pelo Senhor – mas simplesmente pelo fato de optarem pela criatura e não pelo Criador.

Este é o tempo forte de conversão dos nossos corações; tempo em que somos convidados para retomar e  para dar um novo rumo à nossa existência, ou seja, devemos tomar a decisão de deixar de valorizar aquilo que não possui tanta importância e assumir aquilo que verdadeiramente é o fundamental em nossa vida: o seguimento de Jesus Cristo.

Padre Pacheco

Comunidade Canção Nova

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