03 set 2010

Antes de sermos santos, sejamos gente!

Os fariseus e os mestres da Lei questionam Jesus acerca da postura de Seus discípulos; eles dizem que os discípulos de João e os discípulos deles [fariseus] se ocupam muito com jejuns e orações, enquanto que os discípulos de Jesus só se preocupam em comer e beber. O que está por trás deste “comer e beber” questionado pelos fariseus e mestres da Lei e defendido por Cristo?

Na parábola trazida pelo Senhor, a centralidade da mensagem é que não há como pôr remendo novo em pano velho e que não há como pôr vinho novo em odres velhos. Ou seja, é impossível que venha a nascer um ser humano novo, na santidade de vida, se antes não for transformada a humanidade dessa pessoa, isto é, antes de ser formado o homem de Deus, a mulher de Deus, é preciso que seja formada a humanidade porque a graça supõe a natureza.

O que Jesus quer dizer com isso é que o maior investimento, num primeiro momento, sob a graça de Deus, que Ele quer fazer em nós, é formar a nossa humanidade; a conversão de vida começa pelo humano. É impossível nascer o santo se antes não nasceu o ser humano. O “comer e beber” dos discípulos de Jesus quer dizer que esses hábitos são faculdades básicas das necessidades humanas; a primeira coisa que um ser humano aprende ao nascer é se alimentar, é ser gente.  Nosso Senhor Jesus, ao chamar cada um de nós, nos chama para estarmos com Ele; e estarmos com Ele somos convidados a aprender tudo aquilo que consiste o ser humano até chegarmos à santidade de vida.

Quando a realidade é contrária a isso, a espiritualidade – os grandes jejuns e orações – se tornam fuga, máscaras, subterfúgios, tudo, menos uma espiritualidade madura e santificante. Agora, quando a espiritualidade começa a acontecer numa humanidade em desenvolvimento, a santidade nasce de forma transformadora.

O que o Senhor está nos dizendo não é que jejuar e rezar não sejam importantes; pelo contrário; o que quer nos dizer é que, antes de uma grande ascese, a prioridade é a reeducação de vida, de virtudes, de valores. Somos cercados de todos os lados por muitas e muitas pessoas que são totalmente deseducadas. Basta que entremos num ônibus para perceber que, raramente, alguém se levanta para dar lugar a uma grávida, idoso ou deficiente físico… Percebemos raríssimos casos de educação daquelas pessoas que nos servem por onde passamos; até pensamos que as pessoas são obrigadas a nos servirem pelo fato do valor em dinheiro que um estabelecimento comercial nos cobra para que nos seja prestado um serviço.

Não há valor que pague um gesto de caridade, de serviço… Quantas pessoas não sabem se portar diante de outras e em determinados lugares. Frente a isso – num primeiro momento: o que adianta jejuar e rezar se antes não existir o esforço em ser gente, com educação, honestidade e com valores?

Deus, por meio dos profetas, sempre repudiou certas atitudes de práticas espirituais vazias. Quantas vezes O vemos dizer coisas assim: Retirai de minha frente estes sacrifícios, estas falsas orações, estes grandes jejuns, esta mentirada toda revestida de atitudes de santidade, porque vossos corações estão corrompidos de mentiras, de injustiças, de maldades, de fraudes… quero misericórdia e não sacrifício! (Cf. Os 6,6).

Sejamos gente, homens e mulheres com valores e virtudes, para depois querermos ser santos. Caso contrário, viveremos numa eterna mentira e numa constante hipocrisia, a exemplo dos fariseus e mestres da Lei. Rasguemos os panos velhos e quebremos os odres velhos do homem velho, para que a veste nova, o odre novo de um homem novo aconteça e nasça em nós. Daí sim, terão sentido nossas orações e nossos jejuns!

Padre Pacheco

Comunidade Canção Nova

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