O jejum e a presença do Noivo
“Naquele tempo, os discípulos de João Batista e os fariseus estavam jejuando. Então, vieram dizer a Jesus: ‘Por que os discípulos de João e os discípulos dos fariseus jejuam e os teus discípulos não jejuam?’ Jesus respondeu: ‘Acaso os convidados do casamento podem jejuar enquanto o noivo está com eles?'” (Marcos 2,18-22).
Transformando a prática espiritual em um caminho de liberdade interior
É preciso compreender, antes de tudo, que o jejum não é uma dieta, não é uma abstinência triste nem mesmo um exibicionismo espiritual. O verdadeiro jejum é uma prática de espiritualidade e de purificação para que possamos ser plenamente livres no coração.
Como bem dizia um orientador espiritual: quando o ventre recebe muita comida, ele se distende; quando recebe pouca, reduz-se e passa a exigir sempre menos. O que acontece ao nosso estômago reflete diretamente em nossa alma, moldando nossa capacidade de disciplina e foco no que é essencial.
Liberdade e combate à gula digital
Nós vivemos hoje em um mundo marcado pelo consumo exagerado. Nos tempos atuais, além da comida, enfrentamos também o desafio da “gula digital”. Há um interesse constante em consumir conteúdos de forma desenfreada, o que, muitas vezes, gera confusão e desequilíbrio emocional.
Não que o conteúdo digital seja ruim em si — afinal, você está acompanhando agora uma homilia —, mas é necessário dar espaço para aquilo que, de fato, nos constrói. O jejum, nesse contexto, surge como uma ferramenta para recuperarmos a liberdade diante das telas e das informações excessivas.
Recuperando a mística do jejum através da caridade concreta
É hora de recuperar a mística do jejum, evitando o perigo de transformá-lo em um mero rigorismo legal, jurídico ou canônico.
O profeta Isaías é o grande porta-voz do verdadeiro sentido desta prática. Para ele, o jejum como ato simbólico deve apontar para realidades concretas: vestir o nu, saciar o faminto e acolher os desabrigados.
Tais ações não devem ser vistas apenas como um aspecto social da doutrina da Igreja, mas como algo profundamente espiritual. Quando jejuamos corretamente, nossos olhos se abrem para enxergar as necessidades daqueles que estão à nossa volta.
Jejuar com humildade e domínio de si
Jesus condenou fortemente o jejum exibicionista daquelas pessoas religiosas que buscavam parecer elevadas espiritualmente através de um rosto desfigurado ou de uma aparência de tristeza.
O sentido cristão do jejum é uma decisão íntima que exprime autodisciplina e libertação do egoísmo e da lógica da posse.
Os padres da Igreja ensinavam que é muito melhor beber uma taça de vinho com humildade do que um copo de água com orgulho. Portanto, o jejum deve ser um exercício de purificação do espírito, domínio dos sentidos e, acima de tudo, um ato de amor a Deus sem ostentação.
Que possamos recuperar o jejum como essa prática espiritual transformadora em nossa jornada. Sobre todos vós, desça a bênção do Deus Todo-Poderoso: Pai, Filho e Espírito Santo. Amém!


