17 mar 2011

Precisamos respeitar o tempo de Deus

Muitas vezes lemos ou escutamos este texto do Evangelho de hoje. Por ser repetido, várias vezes corremos o risco de não prestar atenção nele. Mas hoje Deus nos convida a olharmos com calma para este trecho e nos suscita uma pergunta. Jesus nos manda rezar e pedir: “Pedi, e ser-vos-á dado; procurai, e encontrareis; batei, e hão-de abrir-vos”. Todavia, como têm sido as nossas orações, ou seja, com que intensidade temos rezado?

Poderíamos parar e ficar somente neste trecho para saborear a sua riqueza e a certeza de que as nossas dúvidas se desvanecem, os nossos medos se dissipam diante da certeza de que Mateus se faz eco, colocando tais palavras na boca de Jesus. Ao continuarmos a leitura, veremos que Cristo reforça mais ainda essa certeza de que “quem pede, recebe; e quem procura, encontra; e ao que bate, hão de abrir”.

Na sociedade de consumo em que vivemos, todos agem por interesse. Vive-se o ditado: “Hoje em dia já ninguém dá nada a ninguém…” e nós vamos “embarcando” nessa ideia – talvez incrementada na sociedade pouco afetiva dos nossos dias – sem olhar para tantos momentos em que Deus afinal ali está. Sim, Ele ali está e nos escuta e faz com que nos encontremos com Ele, com nós mesmos e com os outros, abrindo-nos a porta sem que nos demos conta de que isso acontece. E teimamos em duvidar disso, em nos esquecer d’Ele, das Suas ações em favor dos homens, em nosso favor.

O Evangelho continua a exercer sobre mim uma reflexão enorme porque vai buscar o valor do amor da família, ainda que tantas vezes humanamente as nossas ações sejam de pessoas más, mas que no meio do seu ser “mau” não pode dar coisas más aos que ama: “Qual de vós, se o seu filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, se lhe pedir peixe, lhe dará uma serpente? Ora bem, se vós, sendo maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai que está no Céu dará coisas boas àqueles que lhas pedirem.”

Em nossos dias assistimos muitas vezes episódios de uma criança que vai pedir dinheiro à mãe para comprar, por exemplo, uma guloseima e recebe como resposta um simples: “Você sabe que a mãe não tem dinheiro…” e a tristeza instala-se na voz da tal criança.

O querer e o ter nem sempre dependem das nossas capacidades humanas. E continuamos a pedir ao Pai e nem sempre entendemos, ou nem sempre entendo eu, porque parece que o Senhor não olha pelos que mais precisam, pelos que querem trabalhar com dignidade, pelas crianças e velhinhos que precisam receber toda a atenção e todo o carinho. E pedimos, batemos à porta de Deus, procuramos soluções para tantas necessidades. E Deus Pai escuta, pode não responder logo, mas, sem dúvida, que o Evangelho de hoje volta a recordar em mim a certeza de que, a Seu tempo, Ele nos escuta. Pode não ser no nosso tempo ou no que nós gostaríamos. Mas, sim, indubitavelmente Ele nos escuta, encontra-nos e abre portas.

O final do Evangelho levou-me então a uma reflexão que nunca tinha feito. Nós pedimos a Deus, esperamos de Deus, mas será que Ele nem sempre nos ouve porque nós não somos capazes de ser sinal da Sua presença? Será que eu mesmo nem sempre sou capaz de viver o grande desafio que Cristo lança de imediato ao dizer que “portanto, o que quiserdes que vos façam os homens, fazei-o também a eles, porque isto é a Lei e os Profetas”, será isso que falha à minha humanidade, à minha sociedade, à minha eclesialidade? Fazer aos outros o mesmo que queremos que nos façam. Estará aqui a questão central das nossas incertezas, tristezas, dúvidas e tentações em duvidar de Deus? Posso partilhar que muitas vezes ao ouvir ou ler este Evangelho me questionava: “Mas tá. Tudo bem? É pedir e receber? Parece tão simples, tão fácil! Mas quantas coisas que pedimos e não recebemos?”

Refletindo com mais calma sobre o trecho bíblico “caiu a ficha” que em nenhum momento Jesus disse quando será dado, quando será achado, quando a porta será aberta. Ele apenas diz: “Pedi e vos será dado! Procurai e achareis! Batei e a porta vos será aberta”. A nossa mentalidade é que já está programada para pensar que o tempo entre pedir e receber tem de ser curto, “para ontem”. Como quase tudo na sociedade moderna tem que ser “para ontem”, tem que ser em alta velocidade, tem que apresentar resultado rápido.

Mas precisamos lembrar que o tempo é criatura de Deus, que Deus é o Senhor do tempo, e Sua ação em nossas vidas não precisa respeitar a cronologia humana. Pelo contrário, nossa cronologia é que precisa respeitar, mesmo muitas vezes sem compreender, o “tempo de Deus”. A nós cabe simplesmente o pedir. E o nosso “pedir”, o “procurar” e o “bater” precisam ser constantes, de cristãos que entendem que é a vontade de Deus e não a nossa, que também é o tempo de Deus e não o nosso.

Pai, dá-me um coração grande, capaz de demonstrar um amor imenso ao meu semelhante, na total gratuidade, sem interpor restrições e, sobretudo, respeitar o Teu tempo. Que não se façam as coisas como quero, e sim, como Tu queres e na hora em queres, ó meu Deus.

Padre Bantu Mendonça

Fonte: Blog do Padre Bantu


Padre Roger Araújo

Sacerdote da Comunidade Canção Nova, jornalista e colaborador do Portal Canção Nova.

https://www.facebook.com/pe.rogeraraujo/?fref=ts

Comentários