13 nov 2010

Derramemos o coração diante de Deus

No Evangelho de hoje, o grande tema da liturgia é a oração. Jesus conta uma parábola para nos explicar o comportamento que devemos ter para com Deus, pois Ele possui uma característica muito interessante: Ele quer ser “importunado” pelos Seus filhos. Ora, se aquele juiz não temente a Deus soube atender ao pedido daquela viúva, simplesmente para não ser mais perturbado por ela, quanto mais nós seremos atendidos pelo Altíssimo, sendo que Ele é tomado de amor, compaixão e misericórdia por cada um de nós, se a Ele recorrermos com confiança.

Mas precisamos confessar uma coisa: não é fácil rezar! Aliás, rezar é uma das coisas mais difíceis para o cristão, simplesmente pelo fato de trazermos, dentro de nós, fruto do pecado original, uma indisposição para isso. Todavia, é fundamental que venhamos, num primeiro momento, entender o que, verdadeiramente, significa oração. E o que é oração? Para responder a esta pergunta, somos convidados para recorrer à definição de Santa Teresa D’Avila sobre o assunto: oração é um diálogo entre duas pessoas que se amam. Ana, a mãe de Samuel (I Sm 1,1ss) também traz uma definição espetacular do que é oração, quando interpelada pelo sacerdote Heli, quando a questiona sobre sua atitude – aparentemente – estranha no templo: “Meu senhor, eu simplesmente derramo a minha alma na presença do Senhor”, afirma ela.

A atitude dos maiores homens e mulheres da Sagrada Escritura também no revela sobre o que é oração, pois sempre tiveram a coragem de rasgar as vestes na presença de Deus, ou seja, tinham a coragem de rasgar o coração, arrancar as máscaras e desnudarem-se diante d’Ele numa profunda transparência e verdade. Isso é oração.

Ora, se oração é intimidade diante de Deus, é rasgar o coração diante d’Ele, é derramar a alma diante do altar d’Ele, aqui está o grande motivo pelo qual não conseguimos rezar. Por quê? Porque somos acostumados a ir para a oração e querer colocar máscaras diante de Deus Pai, pois achamos que Ele vai nos atender se formos “bonzinhos”, pois o mundo só aceita “os bonzinhos”, aqueles que não possuem dificuldades. Por essa razão, para sermos aceitos pelas pessoas, nós precisamos disfarçar nossas misérias e pecados; o mesmo comportamento temos diante de Deus Pai.

E aí está o ponto pelo qual não somos atendidos por Deus: queremos usar máscaras diante d’Ele. Os Padres do Deserto vão dizer que a alma da oração não é a piedade – estar inteiro na oração; isso é consequência dessa  prática [oração]. A alma da oração não é a fidelidade – todos os instantes, momentos e dias, estou em oração; isso também é consequência. Para os Padres de Deserto, a alma da oração é a verdade, ou seja, tudo aquilo que está dentro de nós, que não temos a coragem de partilhar com ninguém. Aliás, o Senhor quer conversar, neste diálogo de amor , sobre tudo aquilo que não veio d’Ele, ou seja, nossas misérias, nossos pecados.

Tudo aquilo que temos de bom, de virtudes e talentos em nós, na oração, o Senhor quer que, no máximo, venhamos a agradecer e colocar tudo isso a serviço dos irmãos. O que Ele quer conversar conosco é sobre aquilo que não veio d’Ele: nossas misérias, nossos pecados, nossas feridas, pois Ele quer transformar tudo isso em carisma, em dom, em vida para a vida dos outros. Para isso, é preciso rasgar o coração e suplicar com confiança, pois a confiança é a mãe da oração; a confiança é este vaso que colhe a misericórdia de Deus, a qual se derrama do Coração Misericordioso de Jesus, do Seu lado aberto da cruz redentora.

Padre Pacheco

Comunidade Canção Nova

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