20 Jul 2012

O que o Senhor dirá de mim?

O contexto deste trecho do Evangelho é composto pela incompreensão profunda da parte de fariseus legalistas e, ao mesmo tempo, como luz que se opõe às trevas, encontramos a imensa misericórdia de Jesus Cristo frente a qualquer necessidade do homem, a começar pelas mais básicas.

Sabe-se que a acusação daqueles fariseus não era o furto de espigas em um milharal alheio, mas sim, de que o descanso sabático estava sendo desrespeitado, por um ato considerado, por eles, trabalhoso: “Durante seis dias trabalharás e no sétimo descansarás, tanto na época do plantio como na da colheita” (Ex 34, 21). Assim, o escrúpulo deles foi capaz de usar da Palavra de Deus para acusar a própria Palavra que se fez carne: Jesus.

Realmente existia uma contradição, que jamais seria da Palavra, mas dos corações insensíveis às necessidades dos outros, tão próximos. E Jesus – sabendo do literalismo deles – recorreu a própria Sagrada Escritura da Antiga Aliança, a fim de ajudá-los e não acusá-los: “Nunca lestes o que fez Davi… Ou nunca lestes na Lei… Se tivésseis chegado a compreender o que significa, ‘Misericórdia eu quero, não sacrifícios’, não condenaríeis inocentes” (Mt 12, 3.5.7).

Já quanto a Nova e Eterna Aliança, que dá sentido a toda Lei e Profetas, Jesus aproveita a situação para uma auto-revelação a manifestá-lo como o “novo Moisés”, o Legislador para Israel e o mundo todo: “Ora, eu vos digo: aqui está quem é maior do que o templo” (Mt 12, 6).

O Papa Bento XVI, no seu primeiro livro intitulado “Jesus de Nazaré”,  ao tratar do Sermão da Montanha, faz referência ao relacionamento correto de Cristo com a Lei, pois sobe ao Monte não para desfazer qualquer Palavra de Deus: “Nas antíteses do Sermão da Montanha, Jesus não se situa diante de nós nem como rebelde nem como liberal, mas como o intérprete profético da Torá, que nada anula, mas cumpre…” (BENTO XVI, Jesus de Nazaré, p. 120).

Assim, o cumpridor da Torá, que também apresenta o valor do sábado para os judeus – o qual o remete para a origem da criação do mundo – chama a todos os amados de Deus a uma sensibilidade humana criadora de consenso que reflete o valor do ser humano.

O Concílio Vaticano II partilhou em seu diálogo com o mundo contemporâneo esta verdade tão acessível: “Crentes e não crentes estão geralmente de acordo neste ponto: tudo o que existe na terra deve ser ordenado para o homem, como seu centro e vértice” (Gaudium et Spes, nº 12).

Portanto, nos tempos antigos, presentes e futuros, até que o Senhor da Torá e de toda a Criação retorne glorioso para “julgar vivos e mortos”, cada um de nós poderá demonstrar com palavras e atos, qual é o lugar que ocupamos no “tribunal da história”. Jesus, o Rei da Misericórdia e o Filho do Homem, sempre se apresenta como Justo Juiz e Aquele que, com o Pai das Misericórdias, envia um outro Defensor (Paráclito), para advogar a favor das verdadeiras vítimas e mais, Ele chega a se identificar com todos os que sofrem, a partir das necessidades mais básicas (cf. Mt 25, 31-46).

No Juízo Final então todos escutaremos as palavras de sentença condenatória ou libertação final que, nós próprios, lavramos no tempo. Ou ainda, todos saberão se o Senhor do Sábado teve realmente permissão para ser concretamente o nosso Senhor e se aprendemos, de fato, o que significa “Eu quero amor e não sacrifícios” (Os 6,6).

Dormindo ou não “com este barulho”, acordemos o quanto antes para o outro, que precisa da nossa compreensão e fé que opera pela caridade.

Padre Fernando Santamaria

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