10 fev 2010

O que está emergindo do nosso coração?

O Evangelho de hoje (e nós queremos dar continuidade ao de ontem, pois é a continuação dele) nos regala com um dos trechos mais significativos de Marcos: a discussão do que é puro e do que é impuro. Os discípulos – como vimos ontem – se puseram a comer sem lavar as mãos . Mas lá estavam alguns vizinhos piedosos, da irmandade dos fariseus, acompanhados dos professores de teologia (escribas), vindos da capital, de Jerusalém. Logo se intrometeram dizendo que é proibido comer sem lavar as mãos. Como também era necessário lavar as coisas compradas no mercado, os pratos, as tijelas e tudo o mais. Mas Jesus acha tudo isso muito exagerado, sobretudo, porque dão a isso um valor sagrado.

Na realidade, a piedade de Israel era relativamente simples. Religião complicada era a dos pagãos, que viviam oferecendo sacrifícios e queimando perfumes para seus deuses cada vez que desejavam alguma ajuda ou queriam evitar um castigo. Mas a religião de Israel era sóbria, pois só conhecia um único Deus e Senhor. Consistia em observar o sábado, oferecer uns poucos sacrifícios, pagar o dízimo e, sobretudo, praticar a lealdade (amor e justiça) para com o próximo. Moisés já havia dito que não deviam acrescentar nada a estas regras simples, admiradas até mesmo pelos outros povos. E São Tiago – o mais judeu dos autores do Novo Testamento – afirma claramente: “Religião pura e sem mancha diante do Deus e Pai é esta: “assistir os órfãos e as viúvas em suas dificuldades e guardar-se livres da corrupção do mundo” (Tg1,27).

Mas no tempo de Jesus, os “mestres da Lei” tinham perdido esse sentido de simplicidade. Complicaram a religião com a observância que originalmente era destinada aos sacerdotes. Clericalizaram a vida dos leigos. “Queriam ser mais santos que o Papa!”. Chegavam a dizer que era mais importante fazer uma doação ao templo do que ajudar com esse dinheiro os velhos pais necessitados. Inversão total das coisas. Ajudar pai e mãe é um dos Dez Mandamentos, enquanto de doação ao templo  esses mandamentos nem falam. Declaravam também impurezas num monte de coisas. No templo, tudo bem, o bezerro ou o cordeirinho a ser oferecido tem de ser bonito, puro, sem defeito. Mas no dia a dia, a gente come o que tem e do jeito que pode. Sobretudo, a gente pobre, os migrantes, como eram os amigos de Jesus. Contra todas essas invenções piedosas o Senhor se inflama. Não é aquilo que entra em nós – e que é evacuado no devido lugar – que nos torna impuros, mas a malícia que sai da nossa boca e de nosso coração.

Jesus quis sempre nos ensinar o que Deus quer. A Lei era uma maneira para nos “sintonizar” com a vontade do Altíssimo. E Jesus a [Lei] respeita melhorando-a para torná-la mais de acordo com a vontade do Pai,  a qual é o verdadeiro bem do ser humano. Isso é o essencial. O demais deve estar a serviço do verdadeiro bem da pessoa humana e não a impedir. A verdadeira sintonia com Deus, a verdadeira piedade é o amor a Deus e a Seus filhos e filhas. Práticas piedosas que atravancam isso são doentias e/ou hipócritas.

Mais ainda que a Lei de Moisés, em sua simplicidade original, a “religião” de Jesus deve brilhar por sua profunda sabedoria e bondade. Deve mostrar com toda a clareza o quanto Deus ama Seus filhos e filhas ensinando-lhes a amarem-se mutuamente.

Daí nossa pergunta: nossas práticas religiosas nos ajudam a amar mais a Deus e ao próximo ou apenas escondem nossa falta de compromisso com a humanidade pela qual Jesus deu a vida?

Padre Pacheco

Comunidade Canção Nova

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