04 out 2009

O QUE DEUS UNIU O HOMEM NÃO SEPARE Mc 10,2-16

Os fariseus procuram motivo de condenar Jesus em torno de questões da Lei. A Lei associava o casamento à posse de bens e reconhecia ao homem o direito de repudiar sua mulher, relegando esta a uma posição de submissão. No texto de hoje, Jesus continua a sua caminhada rumo a Jerusalém, onde o poder central religioso-político vai condená-lo à morte, no intuito de acabar não somente com a pessoa dele, mas com o seu ensinamento. O que vemos no Evangelho é Jesus, entrando primeiro em controvérsia com os fariseus, os guardiães da prática fiel da Lei. Grupo, que gozava de grande prestígio diante da população mais simples e que se outorgava o direito de ser o único intérprete autêntico da vontade de Deus. Por isso entram em conflito com Jesus, não querendo conhecer melhor a vontade do Pai, mas, como ressalta o texto “para tentá-lo“. O campo de batalha escolhido era o debate sobre o divórcio. O texto de referência para eles era Dt 24,1-4, onde não se trata da legitimidade do divórcio, mas dos critérios para que possa acontecer

O evangelho de Mateus, no Capítulo 19, deixa mais claro do que Marcos o sentido do debate (Mt 19,1-9). O pano de fundo era os critérios necessário para que um homem pudesse divorciar a sua mulher (nem se cogitava na Lei judaica que a mulher pudesse divorciar o marido, pois a mulher era considerada “objeto” que pertencia ao homem!). No tempo de Jesus havia duas tendências, simbolizadas pelas escolas rabínicas dos grandes fariseus. Uma escola ensinava que se podia divorciar a mulher por qualquer motivo, mesmo dos mais banais. E outra dizia que só era permitido o divórcio por motivos muito sérios. Por isso, em Mateus a pergunta se define melhor: “é permitido divorciar a mulher por qualquer motivo que seja?” (Mt 19,4).

Em ambos os evangelhos, Jesus se recusa a entrar no debate casuística que cercava a questão, e se limitava a reafirmar o projeto do Pai para o casamento: “Portanto, o que Deus uniu, o homem não deve separar“. Aqui Jesus reafirma com toda firmeza o ideal do casamento cristão – uma união permanente, baseada no amor, e fortalecida pela graça do sacramento. Seria inútil buscar neste trecho uma teologia mais desenvolvida do casamento, muito menos orientações pastorais para os problemas práticos de casamentos malsucedidos, pois isso não foi a intenção do autor. Marcos simplesmente reafirma o princípio de que “o que Deus uniu, o homem não deve separar“. Deixa em aberto a questão de quando é que Deus realmente uniu o casal! Será que, só porque passaram por uma cerimônia validamente celebrada, um casal é necessariamente unido por Deus? Os problemas reais são muito mais complexos, angustiantes e difíceis de serem solucionados.

O trecho continua com a questão das crianças. A questão aqui não é a criança como símbolo da inocência, mas de dependência. As crianças e os que se assemelham com eles vivem esta situação de dependência, de “sem-poder”. Quem quer entrar no Reino de Deus terá que abrogar-se de todo o poder dominador, tornando-se como criança.

Negando de aceitar a situação em que a mulher era simples objeto de posse do homem e assim passível de ser divorciada, e propondo o fraco e dependente como modelo, numa sociedade que valorizava o prepotente, Jesus mostra que os valores do Reino de Deus estão na contra-mão dos valores da sociedade do seu tempo – e de hoje. Propõe uma igualdade de dignidade entre homem e mulher, uma fidelidade e compromisso permanentes, e a busca duma vida de serviço e não de dominar! Realmente, uma proposta no contra-fluxo da sociedade pós-moderna que nega o permanente, perpetua o machismo e admira o poderoso e dominador!

Somos convidados hoje, para que, entremos “com Jesus, na contra-mão” e para que criemos uma sociedade baseada em outros valores do que os hoje em vigor, as vezes até no seio das próprias igrejas.

Senhor Jesus, que os casais cristãos compreendam a profundidade de sua união, obra do próprio Deus.

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