13 Jan 2008

O BATISMO DE JESUS Mt 3,13-17

O Batismo de Jesus por João Batista é o ato inaugural do ministério de Jesus. Pode-se dizer que seja a Epifania histórica do Senhor. Atraído pela mensagem de João Batista, Jesus abandona sua rotina de vida em Nazaré da Galiléia, procura o Batismo de João na região do além Jordão e começa a formar seu próprio discipulado para, a seguir, iniciar seu próprio ministério, assumindo elementos do anúncio de João Batista.

O Evangelho deste domingo apresenta o encontro entre Jesus e João Batista nas margens do Rio Jordão. Na circunstância, Jesus foi batizado por João.

João Batista foi o guia carismático de um movimento de cariz popular, que anunciava a proximidade do “juízo de Deus”. A sua mensagem estava centrada na urgência da conversão. Pois, na opinião de João, a intervenção definitiva de Deus na história, para destruir o mal, estava iminente e incluía um rito de purificação pela água.

O “Batismo” proposto por João não era, na verdade, uma novidade insólita. O judaísmo conhecia ritos diversos de imersão na água, sempre ligados a contextos de purificação ou de mudança de vida. Era, inclusive, um rito usado na integração dos pagãos que aderiam ao judaísmo na comunidade do Povo de Deus.

Na perspectiva de João, provavelmente, este “batismo” é um rito de iniciação à comunidade messiânica, quem o aceitava, renunciava ao pecado, convertia-se a uma vida nova e passava a integrar a comunidade do Messias.

O que é que Jesus tem a ver com isto? Que sentido o faz apresentar-se a João para receber este “batismo” de purificação, de arrependimento e de perdão dos pecados?

O texto que hoje nos é proposto faz parte de um conjunto de três cenas iniciais (cf. Mc 1,2-8; 1,9-11; 1,12-13) nas quais Marcos apresenta Jesus como o Messias, Filho de Deus. Nesse tríptico, fica desde logo definida a missão específica e a verdadeira identidade de Jesus. Estas indicações iniciais irão depois ser desenvolvidas e completadas ao longo do Evangelho.

Em Mateus (Mt 3,13-15), Jesus vem da Galiléia ao encontro de João Batista para ser batizado por ele. Ao pedir o batismo, Jesus diz que “é assim que devemos cumprir toda a justiça”. Depois de ser batizado, o gesto de Jesus é confirmado pelo Espírito Santo e pelo Pai com a proclamação: “Este é o meu Filho amado; nele está meu pleno agrado”.

O testemunho de João não oferece dúvidas: Jesus é esse Messias anunciado pelos profetas que Deus vai enviar para libertar o seu Povo e para lhe dar a vida definitiva.

O testemunho de João irá, logo, ser confirmado pelo testemunho do próprio Deus. Na cena do batismo, Mateus faz referência a uma voz vinda do céu que apresenta Jesus como “o meu Filho muito amado”. Esse Messias esperado é também o Filho amado de Deus, enviado aos homens para os “batizar no Espírito” e para inserí-los numa dinâmica de vida nova – a vida no Espírito.

O testemunho de Deus é acompanhado por três fatos estranhos que, no entanto, devem ser entendidos em referência a fatos e símbolos do Antigo Testamento.

Assim, a abertura do céu significa a união da terra e do céu. A imagem inspira-se, provavelmente, em Is 63,19, onde o profeta pede a Deus que “abra os céus” e desça ao encontro do seu Povo, refazendo essa relação que o pecado do povo interrompeu. Desta forma, Mateus anuncia que a atividade de Jesus vai reconciliar o céu e a terra, vai refazer a comunhão entre Deus e os homens.

O símbolo da pomba não é imediatamente claro… Provavelmente, não se trata de uma alusão à pomba que Noé libertou e que retornou à arca (cf. Gn 8,8-12); é mais provável que a pomba (em certas tradições judaicas, símbolo do Espírito de Deus que, no início, pairava sobra as águas – cf. Gn 1,2) evoque a nova criação que terá lugar a partir da atividade que Jesus vai iniciar.

Temos, finalmente, a voz do céu. Trata-se de uma forma muito usada pelos rabbis para expressar a opinião de Deus acerca de uma pessoa ou de um acontecimento. Essa voz declara que Jesus é o Filho de Deus; e fá-lo com uma fórmula tomada desse cântico do “Servo de Jahwéh” que vimos na primeira leitura de hoje (cf. Is 42,1). Afirma-se, de forma clara, que Jesus é o Filho de Deus, mas a referência ao servo de Jahwéh sugere que a missão de Jesus não se desenrolará no triunfalismo, mas na obediência total ao Pai; não se cumprirá com poder e prepotência, mas na suavidade, na simplicidade, no respeito pelos homens (“não gritará, nem levantará a voz; não quebrará a cana fendida, nem apagará a torcida que ainda fumega” – Is 42,2-3).

Ao receber este batismo de penitência e de perdão dos pecados (do qual não precisava, porque Ele não conheceu o pecado), Jesus solidarizou-se com o homem limitado e pecador, assumiu a sua condição, colocou-se ao lado dos homens para ajudá-los a sair dessa situação e para percorrer com eles o caminho da libertação, o caminho da vida plena. Esse era o projecto do Pai, que Jesus cumpriu integralmente.

A cena do batismo de Jesus revela, portanto, essencialmente, que Jesus é o Filho de Deus, que o Pai envia ao mundo a fim de cumprir um projeto de libertação em favor dos homens. Como verdadeiro Filho, Ele obedece ao Pai e cumpre o plano salvador do Pai; por isso, vem ao encontro dos homens, solidariza-se com eles, assume as suas fragilidades, caminha com eles, refaz a comunhão entre Deus e os homens que o pecado havia interrompido e conduz os homens ao encontro da vida em plenitude. Da atividade de Jesus, o Filho de Deus que cumpre a vontade do Pai, resultará uma nova criação, uma nova humanidade.

No episódio do batismo, Jesus aparece como o Filho amado, que o Pai enviou ao encontro dos homens para libertá-los e para inseri-los numa dinâmica de comunhão e de vida nova. Nessa cena revela-se, portanto, a preocupação de Deus e o imenso amor que Ele nos dedica. É bonita esta história de um Deus que envia o próprio Filho ao mundo, pede a e Ele que se solidarize com as dores e limitações dos homens e que, através da ação do Filho, reconcilia os homens consigo e fá-los chegar à vida em plenitude. Aquilo que nos é pedido é que correspondamos ao amor do Pai, acolhendo a sua oferta de salvação e seguindo Jesus no amor, na entrega, no dom da vida. Ora, no dia do nosso batismo, comprometemo-nos com esse projecto. Temos, depois disso, renovado diariamente o nosso compromisso e percorrido, com coerência, esse caminho que Jesus nos veio propor?

A celebração do batismo do Senhor leva-nos até um Jesus que assume plenamente a sua condição de “Filho” e que se faz obediente ao Pai, cumprindo integralmente o projeto do Pai de dar vida ao homem. É esta mesma atitude de obediência radical, de entrega incondicional, de confiança absoluta que eu assumo na minha relação com Deus? O projeto de Deus é, para mim, mais importante do que os meus projetos pessoais ou do que os desafios que o mundo me faz?

O episódio do batismo de Jesus coloca-nos frente a frente com um Deus que aceitou identificar-se com o homem, partilhar a sua humanidade e fragilidade, a fim de oferecer ao homem um caminho de liberdade e de vida plena. Eu, filho deste Deus, aceito ir ao encontro dos meus irmãos mais desfavorecidos e estender-lhes a mão? Partilho a sorte dos pobres, dos sofredores, dos injustiçados, sofro na alma as suas dores, aceito identificar-me com eles e participar dos seus sofrimentos, a fim de melhor os ajudar a conquistar a liberdade e a vida plena? Não tenho medo de me sujar ao lado dos pecadores, dos marginalizados, se isso contribuir para promovê-los e para lhes dar mais dignidade e mais esperança?

No batismo, Jesus tomou consciência da sua missão (essa missão que o Pai Lhe confiou), recebeu o Espírito e partiu em viagem pelos caminhos poeirentos da Palestina, a testemunhar o projeto libertador do Pai. Eu, que no batismo aderi a Jesus e recebi o Espírito que me capacitou para a missão, tenho sido uma testemunha séria e comprometida desse programa em que Jesus se empenhou e pelo qual ele deu a vida? Renovemos o nosso Batismo!

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