31 Mar 2010

O Amor não é amado*

Na Ceia Evangélica de hoje, à medida que nos aproximamos da  Paixão de Jesus vai sobressaindo a sinistra figura do homem que será útil aos planos homicidas dos judeus: Judas Iscariotes. Tudo acontece num clima de amizade traída e no contexto da Ceia Pascal de Jesus com os Seus discípulos, isto é, na primeira Eucaristia da história.

As autoridades judaicas, depois de decidirem a morte de Cristo, deram ordem para que quem conhecesse o  paradeiro do Senhor as informasse. Pois bem, Judas presta-se a isso e, junto dos sumos sacerdotes, avalia a vida de Jesus em trinta moedas de prata. É o preço de um escravo (cf. Ex 21,32). A sua incontrolada avareza conduz Judas a um final deplorável. Durante a Santa Ceia, Jesus desmascara as secretas intenções do traidor, porque Ele, como Senhor da vida e da morte, é quem dispõe da  Sua própria “hora”. Mas contudo, ensaia uma última oferta de amizade para a conversão de Judas. Os discípulos, consternados pelo anúncio do Mestre: “Um de vós me vai entregar”, perguntam uns para os outros: “Sou eu porventura, Senhor”? Também Judas fez a mesma pergunta; e a resposta de Jesus foi afirmativa, tentando até o último minuto recuperar o discípulo extraviado. Mas o traidor não voltou atrás.

Em seguida, o pão e o vinho – sinal já do amor criador de Deus e da vida que d’Ele emana  por inetrmédio de Cristo – passam de mão em mão, significando o propósito de Jesus de partilhar com os Seus, e estes entre si, a vida que Ele vive com Deus Pai. Isso significa comungar eucaristicamente: integração do homem pecador na vida de Deus mediante o Corpo e o Sangue imolados de Cristo; não em privado, mas em comunhão com os irmãos. Foi dessa “comunhão” que se autoexcluiu Judas por sua conta, participasse fisicamente ou não da Eucaristia.

O ato da traição de Judas é sempre impressionante, como deve ter sido especialmente para os seus companheiros, os apóstolos, por ter lugar precisamente no círculo mais íntimo e próximo do Senhor. Exemplo arrepiante que nos revela a profundidade do coração humano, capaz do mais nobre: o amor e a amizade; e também do mais vil: o ódio e a traição. Tudo isso fruto da liberdade do homem, que Deus respeita profundamente.

Se Deus aceita o homem e a mulher tal como são e confia neles, inclusivamente num traidor, como o fez Cristo, devemos aprender nós a lição: aceitar como irmão todo homem e mulher, por mais indignos que nos pareçam. A regeneração é sempre possível, porque a graça de Deus é mais forte que a miséria humana.

Esta Quarta-feira Santa convida-nos para a revisão de vida pessoal e comunitária sobre a nossa resposta a um amor imenso, que nos precedeu, o de Deus, visível em Cristo. Os santos viveram tão intensamente a profundidade deste amor abismando-se nele. Como São Francisco de Assis que percorria montes e descampados repetindo como que fora de si: “O Amor não é amado; o Amor não é amado”.

Padre Pacheco

Comunidade Canção Nova

*Cf. B, CABALLERO. A Palavra de cada dia. p. 166-167. Paulus: 2000.

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