05 ago 2012

O acúmulo de bens é garantia de felicidade?

O Evangelho do 18º Domingo do Tempo Comum inicia-se com a observação de que muitos procuravam a Jesus, não para assumir o Seu projeto de vida, nem para segui-Lo na doação até a morte, mas simplesmente por causa dos Seus milagres, ou sinais, como são chamados no quarto Evangelho. Uma observação que pode valer para muitas expressões religiosas hoje, em todas as Igrejas cristãs, onde a busca do milagroso e da prosperidade individual tomam o lugar do seguimento diário de Cristo na construção de um mundo onde todos “têm a vida e a vida plenamente” (Jo 11,10), conforme a vontade do próprio Jesus.

Diante desse deslocamento de interesse das multidões, Jesus as adverte que devem trabalhar “pelo alimento que não se estraga” (v.27). À primeira vista, pode parecer que esse versículo “dê corda” para uma leitura alienante, espiritualizante, que apresente o seguimento de Jesus como algo somente no nível dito espiritual, sem consequências maiores para a sociedade e o mundo atual. Ledo engano!

Longe de Jesus pregar uma mensagem que tivesse como resultado o abandono dos pobres e marginalizados, num mundo cada vez mais desumano e excludente. O que Ele contesta é uma vida que põe o acúmulo de bens como sua meta. De novo, uma advertência mais do que atual para os nossos dias, onde a pós-modernidade apresenta o consumismo de bens – e a acumulação deles – como garantia de felicidade, e onde se cria uma sociedade excludente, onde não há lugar para quem não pode produzir nem consumir.

Jesus quer que haja equilíbrio nas nossas vidas – que os meios materiais sejam usados para que haja uma sociedade de vida digna para todos e não para o acúmulo de poucos. Assim contestaria tantas igrejas que hoje pregam a “teologia da retribuição e prosperidade individual”.

Fato é que a busca desenfreada de bens coloca o bem-estar material como centro e finalidade de vida – uma verdadeira idolatria. Isso já foi compreendido mais de duzentos anos antes de Jesus pelo sábio autor de Eclesiastes que escreveu: “Quem gosta de dinheiro nunca se sacia de dinheiro. Quem é apegado às riquezas, nunca se farta com a renda. Isso também é fugaz!” (Ecl 5,9).

É preciso buscar em primeiro lugar o Pão descido do Céu, ou seja, o próprio Jesus. Procurar Jesus implica uma opção pela Sua pessoa, mensagem e prática. Não é possível ter uma relação verdadeira com Jesus como pessoa, sem assumir a Sua prática, atualizada para as condições de hoje. Num âmbito religioso onde muitas vezes se prega um Jesus que “deixa passar tudo”, leve, alienado e alienante, que não incomoda, este texto nos leva de volta ao Jesus real, que incomodava tanto que, no fim desse capítulo, é abandonado pelas multidões e finalmente liquidado por um conluio dos poderes políticos, religiosos, econômicos e judiciais. Longe do Jesus “analgésico” tão em voga hoje.

João nos assegura que quem vai a Jesus como discípulo “nunca mais terá fome, nunca mais terá sede”. Pois o seguimento de Jesus, apesar de não ser fácil, é capaz de saciar os desejos mais íntimos da pessoa humana, o que a simples posse de bens materiais não é capaz.

Nós vivemos num mundo onde nunca houve tanta riqueza, nem tanta pobreza; tanta acumulação e tanta exclusão. Com honestidade, podemos dizer que este modelo globalizado, neoliberal e pós-moderno têm melhorado a qualidade de vida da maioria? Com certeza não!

O texto de hoje nos desafia para que re-examinemos a fé que nós temos, a realidade do nosso seguimento a Jesus, as nossas motivações, metas e objetivos de vida. Convida-nos para que coloquemos no centro de nossa existência o projeto de Deus, encarnado em Jesus e continuado nos Seus seguidores, de nos alimentarmos com o Pão da Palavra e da Eucaristia, para que tenhamos vontade e força para criarmos o mundo de vida, onde “todos têm a vida e a vida plenamente”.

Pai, dai-me sensibilidade para perceber que a presença de Jesus, na nossa história, é a grande obra que realizaste: dar-nos a Vida Eterna.

Padre Bantu Mendonça

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