25 set 2011

Não façamos do pecado um projeto de vida

Jesus, neste Evangelho, quer nos dar uma lição sobre o que é verdadeiramente ser um filho. Ele inicia Seu discurso falando a respeito de dois diferentes “tipos” de filhos. Um filho aceita o convite do pai para trabalhar na vinha. E responde: “Sim, pai. Eu vou!” Mas depois desobedece e não vai. O outro filho reage com má vontade diante de seu pai e responde: “Não, eu não vou!” Mas, depois, se arrepende e, de fato, vai trabalhar na vinha do pai.

Qual dos dois filhos realizou a vontade do pai? Aquele que se arrependeu. Pois bem, é aqui que vemos como nós cristãos podemos enxergar a nossa vida.

Não existem dois “tipos” de filhos de Deus, aqueles que são “pecadores, terríveis e condenados ao inferno” e aqueles que são “santos, irrepreensíveis e que irão para o céu”. Não! Os dois filhos pecaram.

Os dois filhos, de alguma forma, desagradaram ao coração do pai. Só que com uma grande diferença. E essa diferença se encontra no arrependimento, numa disposição em mudar de mentalidade e voltar atrás. É aqui que vemos a diferença entre esses dois filhos.

Por isso, em nosso dia a dia, nós cristãos não podemos ficar olhando para as pessoas que não frequentam a igreja, que não fazem a vontade de Deus, que estão em estado de desobediência, como se nós fôssemos melhores e disséssemos: “Vejam só aqueles pecadores… Nós, ao contrário, somos justos e irrepreensíveis!” Nada disso!

Qual é a diferença entre o bom cristão – o bom filho de Deus – e aquele que é um pecador? A diferença está no fato de que o cristão se arrepende do seu pecado.

Nossa reação natural seria dizer: “O bom cristão é aquele que não peca!” Mas, infelizmente, este “tipo” de filho de Deus não existe. Só há um Filho de Deus que jamais pecou: Jesus Cristo. E uma filha de Deus que jamais pecou: a Santíssima Virgem Maria. Os outros todos pecaram. Portanto, todos nós vivemos do arrependimento.

O importante para nós é sabermos que – embora pequemos – não podemos fazer do pecado um projeto de vida. Aqui é que está a grande diferença entre um bom cristão e um pecador.

O bom cristão também peca, assim como o homem pecador. Mas o bom cristão odeia o próprio pecado. O bom cristão está disposto a chorar todos os dias o seu pecado e a se arrepender.

Um santo chamado Isaac de Nínive, certa vez, escreveu: O homem que chora os próprios pecados é maior do que aquele que ressuscita os mortos. Ou seja, um santo que realizasse grandes prodígios, que conseguisse até levantar os mortos, seria um santo “menor” do que aquele que chorasse os próprios pecados.

Porque, ao chorar os próprios pecados, estamos fazendo mais do que ressuscitar corpos. Estamos “ressuscitando almas”! Com o arrependimento nós ressuscitamos para a vida nova, a vida eterna.

De nada adianta ressuscitarmos os mortos que, vivendo esta vida terrena, poderão se perder e pegar o caminho do inferno… O que precisamos é ressuscitar a alma. Ressuscitar homens que, mortos para Deus pelos pecados cometidos, agora vivem. E vivem abertos à vida eterna.

A ressurreição que queremos é a ressurreição da alma. É evidente, é claro, que em nada negamos a importância do corpo e a ressurreição final – que será também dos corpos – mas, aqui, Santo Isaac de Nínive coloca a centralidade da nossa fé nesta realidade: o cristão é aquele que se arrepende de seus pecados e que não fez de seu pecado um projeto de vida.

Afinal de contas, é isso que nossa sociedade, desgraçadamente, prega: “O pecado é algo ‘normal’, comum, todo o mundo faz… Por que não vamos também fazer?” E o homem fica ali, contorcendo-se feito um porco na lama, no meio da lavagem, quando faz do pecado um projeto de vida.

Como verdadeiros cristãos, devemos tomar o firme propósito de chorar os nossos pecados todos os dias, de fazer o nosso exame de consciência diante de Deus e de odiar o pecado cometido. É verdade, nós pecamos. Mas o Senhor quer nos tirar desta “fossa”, deste fosso do pecado e nos dar vida nova e ressurreição.

É assim, e por essa razão, que Jesus diz que os pecadores – como os publicanos e as prostitutas que aceitaram a pregação de João Batista – precederiam aos fariseus no Reino dos Céus. Não tanto porque os pecadores entram por si mesmos. Nada disso. Mas porque existem dois tipos de filhos – ambos pecadores – em que um se arrepende e o outro não. Esta é a diferença.

Arrependamo-nos, portanto! Choremos nossos pecados e “voltemos as costas” para eles. Não façamos do pecado um projeto de vida e abracemos a vontade do nosso Pai celeste.

Se cairmos, nos levantemos sempre. O importante é odiar o próprio pecado.

Padre Paulo Ricardo

(transcrição e adaptação da homilia dominical – canal Liturgia Diária)

Comentários