18 set 2011

Na justiça do Reino não há desigualdade

A parábola de hoje nasce no contexto da realidade agrícola do povo da Galileia. Era uma região rica, de terra boa, mas com seu povo empobrecido, pois as terras estavam nas mãos de poucos e a maioria trabalhava como arrendatários.

O texto nos ensina que a lógica do Reino não é a lógica da sociedade vigente. Em nossa sociedade, uma pessoa vale pelo que produz – logo, quem não produz não tem valor. Assim se faz pouco caso do idoso, do aposentado, do doente e do deficiente físico.

A parábola compara o Reino dos Céus ao patrão que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha. À primeira vista, tudo bem. Se, porém, examinarmos com atenção o ambiente social da parábola, encontramos uma situação lastimável: a praça da cidade, lugar onde todos se encontram, está cheia de pessoas desempregadas.

Nós, que estamos tão acostumados com essa realidade, não medimos muitas vezes o alcance dessa situação. A parábola não nos diz por que se chegou a tal situação de desemprego. Contudo, a Bíblia nos afirma que o ideal de todo israelita era ter seu pedaço de terra, plantar suas parreiras, usufruir dos frutos de seu trabalho. Por que, então, há tantas pessoas desenraizadas da terra? Por que estão perambulando pela praça da cidade? Como chegaram a esse estado? Como sobrevivem essas pessoas? Mas vamos ao nosso texto:

A parábola nos diz que o patrão combinou – com os trabalhadores contratados de manhã cedo – uma moeda de prata por dia. Para o povo da Bíblia, o salário devia ser pago no fim do dia. Esse versículo nos mostra que o salário não é imposto pelo patrão. É fruto de um acordo entre ele e o empregado, de modo que seja evitada a exploração do primeiro em relação ao segundo. O empregado concordou com o salário estipulado e isso supõe que, com uma moeda de prata diária, poderia levar uma vida digna.

O patrão passa novamente pela praça por volta das nove horas. Encontra mais gente desempregada. Contrata-os para trabalhar na vinha, não mais prometendo pagar uma moeda de prata, e sim o que for justo. A essa altura, a parábola começa a provocar suspense: o que o patrão entende por justiça?

O versículo cinco nos mostra que o patrão faz a mesma coisa ao meio-dia, às três horas da tarde e também em torno das cinco horas, quando o dia está por terminar. A praça da cidade ainda está cheia de gente desempregada: “Ninguém nos contratou”, ou seja, não houve quem se interessasse pela situação dessa gente. Quantas pessoas – e por quantas vezes – chegaram ao fim do dia sem ter “sua moeda de prata”, sem ter como defender a própria vida e a de seus dependentes?

O patrão os manda para sua vinha sem lhes dizer o que vão receber por uma hora apenas de trabalho. Isso aumenta, no ouvinte, o suspense em relação ao final da parábola.

O fim do dia chegou. E chega também a novidade que nos mostra o que é a justiça do Reino: “O patrão disse ao administrador: ‘Chame os trabalhadores e pague uma diária a todos! Comece pelos últimos e termine pelos primeiros'”. A inversão na ordem de pagar os empregados cria o suspense maior, provocando assim o diálogo entre o patrão e o empregado da primeira hora que reclama pelo fato de os últimos terem sido igualados aos primeiros.

A decisão do patrão é o coração da parábola e traça uma nítida distinção entre a justiça da nossa sociedade e a justiça do Reino. A justiça dos homens funciona desta forma: cada qual recebe pelo que fez, sem levar em conta as necessidades de cada um nem os motivos pelos quais as pessoas estavam desempregadas após terem perdido seu pedaço de terra.

A justiça do Reino, por sua vez, tem este princípio: todos têm direito à vida em abundância. Os marginalizados não carecem em primeiro lugar de beneficência, mas da justiça que arrebenta os trilhos estreitos daquilo que normalmente entendemos por justiça. É isso que faz o patrão: dá a cada um segundo a justiça do Reino.

Os que foram contratados de manhã cedo murmuram. Sua queixa revela com exatidão quais são os critérios de Deus: “Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor do dia inteiro”.

Nesse sentido, “operários da primeira hora” somos todos nós quando admitimos e defendemos a desigualdade brutal existente entre o salário de um trabalhador braçal e o de um executivo, de uma professora de primeiro grau, de um político, entre outros. O projeto de Deus, diferente do nosso, – até que nos convertamos aos pensamentos e caminhos de Deus – preveem igualdade para que todos possam usufruir da vida: “Tome o que é seu e volte para casa! Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a você. Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou você está com ciúme porque eu estou sendo generoso?” O trabalho não existe para criar desigualdade.

O ciúme desse operário da primeira hora é, no Evangelho de Mateus, pequena amostra de todos os conflitos que Jesus enfrentou por causa de Sua opção por fazer justiça aos últimos. Resultado final desse “ciúme” é Sua condenação à morte. Soa, portanto, aos nossos ouvidos – mais uma vez – o programa de Jesus: “Devemos cumprir toda a justiça”, e o programa dos Seus seguidores: “Se a justiça de vocês não superar a dos doutores da Lei e a dos fariseus, vocês não entrarão no Reino dos Céus”.

Pai, que eu jamais me deixe levar pelo espírito de ambição e rivalidade, convencido de que, no Reino, somos todos iguais: teus filhos.

Padre Bantu Mendonça


Padre Roger Araújo

Sacerdote da Comunidade Canção Nova, jornalista e colaborador do Portal Canção Nova.

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