13 fev 2009

IMPORTÂNCIA DO TOQUE E DA PALAVRA DE JESUS Mc 7,31-37

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O primeiro catecismo da comunidade cristã é o evangelho de Marcos cujo objetivo é responder à pergunta “Quem é Jesus?”, a partir daquilo que ele fez e ensinou. Assim sendo na sua catequese, Marcos quer ao mesmo tempo mostrar o que significa tornar-se discípulo de Jesus. A resposta vai sendo dada aos poucos, à medida que as pessoas se comprometem com o projeto de Deus, atuando uma prática libertadora que traduza a presença e ação de Deus na história. Só assim as pessoas acabarão descobrindo e confessando que “verdadeiramente este homem é Filho de Deus.

No texto de hoje, novamente vemos Jesus percorrendo regiões pagãs: Tiro, Sidônia e a região da Decápole. Com essas informações, Marcos quer mostrar aos que iniciam sua caminhada de discípulos o interesse que Jesus teve para com os pagãos, fazendo deles membros da família de Deus e neles estamos todos nós.

Porque fazendo um estudo acurado verificamos que o evangelho de Marcos se destinava, a pagãos dispostos a abraçar a fé. A expressão “Efatá”, que quer dizer abre-te, fazia parte da liturgia batismal da Igreja primitiva. Para o que iniciava sua caminhada de discípulo, para mim e para ti hoje Jesus quer fazer conosco o mesmo que fez com aquele surdo do evangelho.

Ele é aquele que abre os ouvidos e a boca das pessoas. Como ouvimos no texto se trata de pessoa incapaz de ouvir, de dar seu consentimento, de testemunhar. Jesus leva essa pessoa para fora da multidão. Poderíamos nos perguntar qual seria o sentido desse gesto. Será que ele está queria esconder seu poder de cura, sem permitir que outros aprendam como fazer o mesmo? Todavia, pastoralmente falando, o fato tem o seguinte significado: Jesus cura o surdo-mudo longe da multidão para que este se sinta, depois, responsável pelo anúncio daquilo que Jesus lhe fez, tornando-se, por sua vez, evangelizador, isto é, portador da boa-nova de que “verdadeiramente este homem é Filho de Deus”. Assim este deve ser a minha e a tua atitude. Jesus nos consagra para a Sua missão.

Jesus cura o surdo-mudo tocando-o. Coloca-lhe os dedos nos ouvidos, e com a saliva lhe toca a língua. A saliva sempre teve, no mundo antigo, caráter terapêutico. Por outro lado, também o contato de Jesus com o surdo-mudo é importante. Tocando Jesus o surdo-mudo, é o próprio Deus que se ocupa de quem não podia ouvir nem falar, ou seja, ele está reintegrando em sua dignidade e identidade alguém que fora privado da vida. Isso está em íntima sintonia com a primeira leitura. De fato, o episódio é uma catequese sobre Jesus a partir de Isaías 35. Com isso Marcos provoca os que iniciam a caminhada da fé a fazer a seguinte constatação: Jesus é aquele que, anunciado em Isaías, abre agora os ouvidos e a boca das pessoas, para que possam testemunhá-lo. Interessante, ainda, é notar que Jesus toca primeiro os ouvidos e depois a boca: a catequese é primeiramente escuta, assimilação e a seguir, como conseqüência, é anúncio.

Mas não são os gestos de Jesus que curam o surdo-mudo, e sim sua palavra. Depois que Jesus ordenou “Abre-te!” é que seus ouvidos se abriram e sua língua se soltou, e ele começou a falar sem dificuldade. Com isso Marcos esclarece a ação de Jesus. Ele não é um mágico. Só sua palavra liberta e reintegra, e as pessoas não precisam de rituais ou de magia para abrir os ouvidos e anunciar que ele é o Messias.

Interessante, ainda, é perceber que, antes de curar o surdo-mudo, Jesus “olha para o céu e suspira”. Quero que juntos vejamos no suspiro de Jesus um gesto de indignação diante da situação em que se encontram tantas pessoas marginalizadas quer sejam nossos parentes quer não.

Após ter curado o surdo-mudo, Jesus ordena à multidão que não espalhe a notícia. Isso faz parte do plano de Marcos. Seu evangelho é uma catequese progressiva, e é impossível as pessoas darem pleno testemunho de quem é Jesus sem passar pela mesma prática, sem ir com ele até o fim, na cruz e na ressurreição. De fato, só ao pé da cruz é que se faz a verdadeira revelação de quem é Ele. Contudo, à medida que as pessoas vão crescendo no conhecimento d’Ele, re-nomeando ao mesmo tempo alguns aspectos de quem é Jesus. O surdo-mudo curado anuncia à multidão o que Jesus significa para ele, e esta, por sua vez, espalha a notícia aos outros: “Quanto mais ele recomendava, mais eles divulgavam”. Isso faz pensar na progressão que nosso testemunho sofre à medida que nos comprometemos sempre mais com o projeto de Deus. E tu o que tens feito para que a fama e o Evangelho da Boa-Nova cheguem a todos os homens e mulheres?

A multidão proclama que Jesus “tem feito bem todas as coisas: aos surdos fez ouvir e aos mudos falar” . Essa proclamação recorda duas coisas. Em primeiro lugar, relembra o projeto de Deus na criação. Depois de ter criado todas as coisas, Deus gostou do que fez, e viu que estava tudo muito bem feito (cf. Gn 1,31). Em segundo lugar, evoca Is 35,4. Tudo isso é atribuído a Jesus. Ele vem de Deus e traz a salvação. Portanto, quem é Jesus? É aquele que cria o mundo novo. É aquele que, vindo de Deus, devolve vida e liberdade aos oprimidos e mutilados pela sociedade. Cabem, portanto, algumas perguntas: Quem é que “cria” surdos e mudos, uma multidão impossibilitada de ouvir e de falar? Quem mantém o povo nessa situação? Os acontecimentos da vida social ajudam o povo a sair da situação de surdo-mudo em que se encontra?

Não te esqueças: o Evangelho de Marcos é um alerta para mim e para ti que nos dizemos cristãos. Saiba que pela palavra e pelo toque do Jesus o próprio surdo-mudo, depois de curado, torna-se evangelizador. Este é grande desafio para nós que ouvimos a Sua palavra e fomos tocamos por Ele e por isso cremos ser cristãos maduros e comprometidos.

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