24 dez 2010

"Hoje nasceu para vós um Salvador!"

Hoje nasceu o Nosso Salvador, Jesus Cristo Senhor! Alegremo-nos no Senhor, porque nasceu na terra o Nosso Salvador. Hoje desceu do céu sobre nós a verdadeira Paz.

Falando do Evangelho, começaremos pelo recenseamento. O de hoje, é o primeiro dos três de César e foi feito no ano 28 a.C., que corresponde ao ano 749 da fundação de Roma. Havia duas classes de censo populacional:

a) o dos cidadãos romanos tanto na Itália como nas províncias. O censo do povo era feito com a finalidade de recolherem impostos ou exigir o serviço militar. Normalmente requeria uma declaração e uma valoração das propriedades. Esse tipo de censo foi feito nos anos 28 e 8 a.C., e 14 d.C..

b) dos habitantes nas províncias que não tinham cidadania romana, dependendo das condições da demarcação em curso. Nas províncias imperiais, os delegados, como era o caso dos da Síra-Palestina, podiam convocar o censo por própria vontade.

No nosso caso não parece ser um censo fiscal, mas uma convocação para prestar um juramento de fidelidade a César no tempo de Herodes. Este juramento foi feito por ordem de Roma e com os procedimentos romanos: isto é, no lugar de residência de cada um, especialmente no Oriente em que abundava a população flutuante. Foi feito para congraçar-se com César, aproximadamente no ano 7 a.C.. Este censo-juramento do ano 7/6 a.C. foi feito antes do censo de Quirino, legado da Síria no ano 6/7 d.C.. Por que Lucas escreve sobre Quirino se não era propriamente esse o censo que obrigou José a ir a Belém? A solução é a memória incorreta dos judeus que consideravam como datas memoráveis tanto a morte de Herodes como o censo de Quirino em que os tumultos do povo foram notáveis. Por outro lado, devemos  levar em conta que tais censos demoravam anos para serem cumpridos.

O motivo de Lucas foi para delimitar o nascimento de Jesus com fatos históricos conhecidos na época. À parte essa intenção temos a ação do Espírito, que nos dá detalhes para combater uma das mais sugestivas heresias do primitivo Cristianismo: o docetismo, que pretendia provar que o Corpo de Jesus era aparente. Os detalhes de Seu nascimento desbaratam semelhante disparate. Uma outra intenção é ligar Jesus com Davi, não unicamente como descendente, da mesma tribo, mas também como um nascido no mesmo lugar para indicar a ininterrupção da realeza fundada no mais famoso dos reis de Israel. O nome “Betlehem”, casa do pão, é simbolicamente uma referência ao que se chamaria “pão descido do céu” ( cf. Jo 6, 51). Belém era a cidade de Davi e seria logo a cidade de Jesus.

A palavra “primogênito” tem um valor religioso. Traduz a palavra pelas primícias que devem ser dadas a Deus.

O parto, segundo os dias costumeiros numa mulher, o envoltório em faixas era coisa rotineira entre as mulheres da época e da Palestina. Tudo para indicar que Jesus era um homem normal de corpo e osso, formado durante a gravidez no seio de Maria. O que não é normal é o presépio [manjedoura], por isso, Lucas deve dar a razão do mesmo: Não havia lugar para eles no quarto de hóspedes. O simbolismo das faixas pode ser evidente, pois Salomão em Sb 7, 4 relaciona sua condição de Rei com o fato de ter sido envolto em faixas. Ou como Moisés que foi envolto pela própria mãe por falta de parteira. Mais bem parece ser um sinal de que Jesus é como todo homem quando criança que é amado e acolhido, à diferença de Jerusalém que, segundo Ezequias 16, 4-5 afirma, tornar-se-ia uma cidade abandonada. Pelo contrário teve uma verdadeira mãe que cuidava dele desde o primeiro instante. Um messias menino era praticamente impensado nos tempos de Jesus. Uma mãe solícita é o que descobrimos nesse relato íntimo e familiar. Os católicos descobriram Maria como instrumento vivo para a vida do Salvador. O Verbo escolheu o Homem Jesus, mas também escolheu de modo especial Maria como mãe.

Quanto aos pastores diz-se que eram nômades, viviam no descampado pastoreando seu rebanho e à noite faziam suas vigílias para guardá-lo. Envolvidos em luz acolhem o anúncio do nascimento de Jesus. Deus toma como nova moradia os corpos simples dos pastores. São os novos tabernáculos, segundo o que Jesus declara à samaritana (cf. Jo 4,24).

O nascimento de um Salvador, Messias Senhor se converte na causa de um grande gozo para todo o povo de Israel. Muitos acreditam que quanto mais divinizemos a figura de Jesus tanto mais se tornará em proveito próprio essa imagem sagrada do mesmo que aparentemente despojamos da vertente humana. O Evangelho de hoje mostra o contrário: Deus quis se aproximar do homem, tornando-se um de nós, sem diferença, porque Ele ama a humanidade e a admite no Seu Filho e motivo de nossa meditação.

Se Cristo é como Homem o modelo, poderemos pensar que tipo de homem o sábio, o rico, o poderoso, o louvado e estimado, ou pelo contrário o pobre, o humilde, o necessitado, o escondido e até excluído, foi desde o início o homem Jesus em quem o Verbo quis habitar pessoalmente unido a Ele. Evidentemente o Evangelho de hoje escolhe este segundo tipo e o descreve com especiais detalhes de modo que ninguém se sinta envergonhado de sua pequenez e insignificância.

Jesus é pastor, nasce como pastor e é visitado e adorado por pastores antes de ser Rei. Deus entre os homens gostará de ser o verdadeiro pastor trocando uma realeza esperada como era o esperado de um descendente do rei Davi, pelo ofício que este tinha de cuidar das ovelhas. O reinado de Cristo começa pelo serviço como pastor que dá a vida pelas ovelhas.

Padre Bantu Mendonça K. Sayla


Padre Roger Araújo

Sacerdote da Comunidade Canção Nova, jornalista e colaborador do Portal Canção Nova.

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