24 mar 2011

E você? Para onde quer ir?

Esta parábola não visa tratar sobre caridade e falta de caridade. Não diz que o rico negava esmolas a Lázaro. Talvez até ignorasse a presença dele em sua casa, fechado como estava em seu bem-estar, fato que não lhe permitia perceber problemas alheios, como, muitas vezes, dizem: “Cada um por si e Deus por todos”.

Jesus quer chamar a atenção não para a necessidade de amarmos ao próximo, mas para a importância das situações. Uma situação de poder e prazeres pode insensibilizar a mente, tornando-a insensível às necessidades dos outros. Pode fechar a porta do céu, tirando a fome da vida eterna, se já se julga satisfeito com seus bens. Ao contrário, uma situação de penúria entretém a fome e a sede de algo maior: a vida eterna.

A riqueza honesta não é má nem condenável, assim como a pobreza não é garantia de salvação. Mas ambas suscitam atitudes éticas que podem facilitar ou dificultar a procura de Deus. É para isso que o Senhor quer despertar os cristãos nessa parábola.

A situação cômoda em que se acham os ricos pode diminuir seu zelo pelas necessidades dos pobres e excluídos da nossa sociedade.

Cristo chama os pobres, os que têm fome, sede e choram, de bem-aventurados, não por causa da pobreza como tal, mas por causa da atitude ética, da fé e do amor ao próximo que essa pobreza preserva ou suscita. E chama os ricos de infelizes (cf. Lc 6,24-26), não por causa da riqueza como tal, mas porque a riqueza pode fazer murchar a fé e o senso da vida futura.

O rico morreu sem fome física nem espiritual: nada mais espera na outra vida, satisfeito que estava em seu bem-estar. Lázaro, que teve fome física e doenças, tinha fome de uma realidade melhor do que a vida terrestre. No além, a fome material e espiritual de Lázaro era saciada, ao passo que a do rico, ela não existia.

Alguém pode ser rico e ter um coração de pobre, cultivando o desapego, a humildade, a caridade; assim como alguém pode ser pobre, mas ter um coração de rico, sem caridade nem humildade. Lázaro, pobre na terra, e Abraão, rico na terra, tiveram a mesma sorte final, porque ambos, em circunstâncias diferentes, tiveram o mesmo amor a Deus e o mesmo desprendimento dos bens terrenos.

A parábola nos lembra que o Céu e o inferno começam no nosso dia a dia. Não nos faltam os fatos, acontecimentos, coisas em cada dia, que são objetos de santificação. A fé descobre neles os sinais de Deus a respeito do sentido desta vida. Nós não vivemos de milagres, mas do dia a dia. É nele que devemos encontrar a vida de santificação. Muitos procuram sinais e milagres e dizem que se Deus se fizesse mais sensível e lhes desse um sinal seriam mais fervorosos.

Isso é pura ilusão, meu irmão, minha irmã! Quem não tem fé nos dons cotidianos de Deus, encontrará razões falsas para não reconhecer os milagres d’Ele. Abraão responde ao rico que quem não tem o hábito da fé viva, rejeitará mesmo os sinais mais significativos. Na verdade, Lázaro, irmão de Marta e Maria, e o próprio Jesus haviam de ressuscitar dentre os mortos e aparecer aos judeus, mas nem assim estes se deixaram convencer.

Abraão diz existir entre o Céu e o inferno um grande abismo. E este indica que é só na vida terrestre que podemos nos converter. O tempo da conversão é hoje e agora. A morte nos estabelece em nossa condição definitiva: ou o Céu para sempre ou o inferno para sempre.

Essa parábola nos leva a concluir que, quando eu e você deixarmos este mundo, receberemos uma sentença. Veja que Lázaro foi levado ao “seio de Abraão” e o rico aos tormentos do inferno. Isso pressupõe uma sentença de Deus logo após a nossa morte. E ela é definitiva, pois o mau não pode passar para o lugar do justo; nem vice-versa. Eu já fiz a minha opção: quero ir para o seio de Abraão! E você? Para onde quer ir?

Padre Bantu Mendonça

Fonte: Blog do Padre Bantu


Padre Roger Araújo

Sacerdote da Comunidade Canção Nova, jornalista e colaborador do Portal Canção Nova.

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