17 ago 2011

A comunidade cristã não pode discriminar pessoas

Nesta parábola, Jesus quer fazer-nos compreender que a bondade de Deus ultrapassa todos os critérios humanos. Os trabalhadores da última hora receberam tanto como os da primeira. Estes, porém, não foram tratados com injustiça: receberam o que havia sido ajustado. Mas a parábola tem certamente alcance mais vasto: a Igreja dos pagãos, chegados no fim dos judeus, e que foram igualmente acolhidos por misericórdia!

Julgo que você e eu estamos de acordo de que o centro da pregação de Jesus era o Reino de Deus. Mas Jesus nunca define o Reino, pelo contrário, sempre o descreve por meio de parábolas, para que você e eu nos esforcemos na descoberta dos valores que o [Reino] tornam presente entre nós.

A parábola de hoje nasce na realidade agrícola do povo da Galileia. Era uma região rica, de terra boa. Porém, as pessoas estavam empobrecidas, porque as terras estavam nas mãos de poucos, e a maioria trabalhava empregada, como o que acontece hoje em dia no Brasil e no mundo. Portanto, diríamos que embora a cena se situe na Galileia de dois mil anos atrás, bem poderia ser no Brasil e no mundo atual.

Encontramos no Evangelho de hoje uma situação de trabalhadores braçais desempregados, não por quererem, mas porque ninguém os contratou. Contudo, talvez haja uma diferença, comparando-se com a situação atual: na parábola, o salário combinado era de uma moeda de prata – um denário – que, na época, era suficiente para o sustento diário duma família, o que nem sempre hoje se verifica.

O texto nos ensina que a lógica do Reino de Deus não é a lógica da sociedade vigente. Em nossa sociedade, uma pessoa vale pelo que produz. Logo, quem não produz não tem valor, assim se faz pouco caso do idoso, do aposentado, do doente e assim por diante. Na parábola, o patrão usa como critério de pagamento, não a produção, mas o sustento da vida. Também o trabalhador da última hora precisa sustentar a família, por isso recebe o valor suficiente, ou seja, um denário.

O Reino de Deus tem outros valores que divergem dos valores desta sociedade neoliberal na qual vivemos. A vida é o critério, não a produção. Por isso, quem procura vivenciar os valores do Reino estará na contramão da sociedade dominante.

O texto nos convida a imitar o Pai do Céu, lutando por novas relações na sociedade e no trabalho, baseadas no valor da vida, não na produção e consumo. Para a comunidade de Mateus, a parábola tinha mais um sentido: começavam a entrar pagãos na comunidade, e muitos cristãos de origem judaica tinham dificuldade em aceitá-los em pé de igualdade. Eram os “da última hora”. Mateus conta a parábola para ensiná-los que, no Reino, experimentado por intermédio da comunidade, não pode haver discriminação entre cristãos de várias origens. Por isso, “os últimos serão os primeiros”.

O critério no Reino é a gratuidade de Deus Pai, pois tudo o que temos recebemos d’Ele, e sendo todos filhos e filhas amados d’Ele, a comunidade cristã não pode discriminar pessoas, por qualquer motivo que seja. Assim, o cristão deve defender o bem comum. Ele deve ser presença junto aos fracos e pobres. Deve ser força para os enfermos e buscar os dispersos, pois assim Cristo fez.

Deus é bom e justo. E no Seu Reino todos recebem o mesmo tratamento misericordioso. Somos filhos e filhas da Sua misericórdia. E na Sua misericórdia se manifesta a Sua bondade e justiça, pois Ele é bom e justo.

Padre Bantu Mendonça


Padre Roger Araújo

Sacerdote da Comunidade Canção Nova, jornalista e colaborador do Portal Canção Nova.

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