11 fev 2011

Curados para evangelizar

O primeiro catecismo da comunidade cristã é o Evangelho de Marcos, cujo objetivo é responder a pergunta “Quem é Jesus?”, a partir daquilo que Cristo fez e ensinou. Assim sendo, Marcos quer, ao mesmo tempo, mostrar o que significa tornar-se discípulo de Jesus. A resposta vai sendo dada aos poucos, à medida que as pessoas se comprometem com o projeto de Deus, atuando uma prática libertadora que traduza a presença e ação do Senhor na história. Só assim as pessoas acabarão descobrindo e confessando que “verdadeiramente este homem é Filho de Deus”.

No texto de hoje, novamente vemos Jesus percorrendo regiões pagãs: Tiro, Sidônia e a região da Decápole. Com essas informações, o apóstolo Marcos quer mostrar aos que iniciam sua caminhada de discípulos o interesse que o Senhor teve para com os pagãos, fazendo deles membros da família de Deus e neles estamos todos nós representados.

Porque fazendo um estudo apurado verificamos que o Evangelho de Marcos se destinava a pagãos dispostos a abraçar a fé. A expressão “Efatá”, que quer dizer “Abre-te”, fazia parte da liturgia batismal da Igreja primitiva. Para aquele que iniciava sua caminhada de discípulo, para mim e para você, hoje, Jesus quer fazer conosco o mesmo que fez com aquele surdo do Evangelho.

Ele é aquele que abre os ouvidos e a boca das pessoas. Como ouvimos no texto se trata de pessoa incapaz de ouvir, de dar seu consentimento, de testemunhar. Jesus Nazareno leva essa pessoa para fora da multidão. Poderíamos nos perguntar qual seria o sentido desse gesto. Será que Cristo queria esconder Seu poder de cura, sem permitir que outros aprendessem como fazer o mesmo? Todavia, pastoralmente falando, o fato tem o seguinte significado: Jesus cura o surdo-mudo longe da multidão para que este se sinta, depois, responsável pelo anúncio daquilo que o Senhor lhe fez, tornando-se, por sua vez, evangelizador, isto é, portador da Boa Nova de que “verdadeiramente este homem é Filho de Deus”. Assim esta deve ser a minha e a sua atitude. Jesus nos consagra para a Sua missão.

Jesus cura o surdo-mudo tocando-o. Coloca-lhe os dedos nos ouvidos, e com a saliva lhe toca a língua. A saliva sempre teve, no mundo antigo, caráter terapêutico. Por outro lado, também o contato de Jesus com o surdo-mudo é importante. Ao tocá-lo, é o próprio Deus que se ocupa de quem não podia ouvir nem falar, ou seja, Ele está reintegrando em sua dignidade e identidade alguém que fora privado da vida. Isso está em íntima sintonia com a primeira leitura. De fato, o episódio é uma catequese sobre Jesus a partir de Isaías 35.

Com isso, Marcos provoca os que iniciam a caminhada da fé a fazer a seguinte constatação: Jesus é aquele que, anunciado em Isaías, abre agora os ouvidos e a boca das pessoas, para que possam testemunhá-Lo. Interessante, ainda, é notar que Cristo toca primeiro os ouvidos e depois a boca: a catequese é primeiramente escuta, assimilação e a seguir, como consequência, é anúncio.

Mas não são os gestos de Jesus Cristo que curam o surdo-mudo, e sim Sua Palavra. Depois que Ele ordenou “Abre-te!” é que seus ouvidos se abriram e sua língua se soltou, e o homem começou a falar sem dificuldade. Com isso o apóstolo esclarece a ação de Jesus. Ele não é um mágico. Só Sua Palavra liberta e reintegra, e as pessoas não precisam de rituais ou de magia para abrir os ouvidos e anunciar que Ele é o Messias.

Interessante, ainda, é perceber que, antes de curar o surdo-mudo, Jesus “olha para o céu e suspira”. Quero que juntos vejamos no suspiro de Jesus Ressuscitado um gesto de indignação diante da situação em que se encontram tantas pessoas marginalizadas, quer sejam nossos parentes quer não.

Após ter curado o surdo-mudo, Jesus ordena à multidão que não espalhe a notícia. Isso faz parte do plano de Marcos. Seu Evangelho é uma catequese progressiva, e é impossível as pessoas darem pleno testemunho de quem é Jesus sem passar pela mesma prática, sem ir com Ele até o fim, na cruz e na Ressurreição. De fato, só ao pé da cruz é que se faz a verdadeira revelação de quem é Cristo. Contudo, à medida que as pessoas vão crescendo no conhecimento d’Ele, renomeando ao mesmo tempo alguns aspectos de quem é Jesus. O surdo-mudo, curado, anuncia à multidão o que Jesus significa para ele, e esta, por sua vez, espalha a notícia aos outros: “Quanto mais ele recomendava, mais eles divulgavam”. Isso faz pensar na progressão que nosso testemunho sofre à medida que nos comprometemos sempre mais com o projeto de Deus. E você? O que tem feito para que a fama e o Evangelho da Boa Nova cheguem a todos os homens e mulheres?

A multidão proclama que Jesus “tem feito bem todas as coisas: aos surdos fez ouvir e aos mudos falar” . Essa proclamação recorda duas coisas. Em primeiro lugar, relembra o projeto de Deus na criação. Depois de ter criado todas as coisas, Deus gostou do que fez, e viu que estava tudo muito bem feito (cf. Gn 1,31). Em segundo lugar, evoca Isaías 35,4. Tudo isso é atribuído a Jesus. Ele vem de Deus e traz a salvação. Portanto, quem é Jesus? É Aquele que cria o mundo novo. É Aquele que, vindo de Deus, devolve vida e liberdade aos oprimidos e mutilados pela sociedade. Cabem, portanto, algumas perguntas: Quem é que “cria” surdos e mudos, uma multidão impossibilitada de ouvir e de falar? Quem mantém o povo nessa situação? Os acontecimentos da vida social ajudam o povo a sair da situação de surdo-mudo em que se encontra?

Não se esqueça: o Evangelho de Marcos é um alerta para mim e para ti que nos dizemos cristãos. Saiba que pela Palavra e pelo toque de Jesus Cristo o próprio surdo-mudo, depois de curado, torna-se evangelizador. Este é grande desafio para nós que ouvimos a Palavra de Deus e fomos tocamos por Ele e por isso cremos ser cristãos maduros e comprometidos.

Padre Bantu Mendonça

Fonte: Retirado do Blog do padre Bantu


Padre Roger Araújo

Sacerdote da Comunidade Canção Nova, jornalista e colaborador do Portal Canção Nova.

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