15 nov 2011

Como lidar com os ricos e os pobres?

O Evangelho nos apresenta a encantadora história de Zaqueu. Jesus chegou a Jericó. Não é a primeira vez que vai e, nesta ocasião, ao aproximar-se também curou a um cego (cf. Lc 18,35ss). Isto explica porque há tanta multidão esperando-o. Zaqueu, “chefe dos publicanos e rico”, para ver melhor a Jesus sobe numa árvore no caminho que as pessoas seguem (logo na entrada de Jericó há ainda um velho sicômoro semelhante ao de Zaqueu). Quando Jesus chegou àquele lugar, levantando os olhos disse-lhe: “Zaqueu, desce logo; porque convém que hoje eu fique em sua casa”. Zaqueu apressou-se a descer e recebeu a Jesus com alegria. Ao vê-lo, todos murmuravam dizendo: “Foi hospedar-se na casa de um homem pecador”.

O episódio serve para evidenciar – uma vez mais – a atenção de Jesus pelos humildes, rejeitados e desprezados. Seus concidadãos desprezavam a Zaqueu porque praticava injustiças com o dinheiro e com o poder e, possivelmente, também porque era pequeno de estatura. Para eles, Zaqueu não é mais que “um pecador”. Jesus, ao contrário, vai encontrar-lhe em sua casa. Deixa a multidão de admiradores que lhe recebeu em Jericó e vai somente para a casa de Zaqueu. Faz como o Bom Pastor, que deixa as noventa e nove ovelhas para buscar a que completa a centena, a que se perdeu.

Também a atuação e as palavras de Zaqueu contêm um ensinamento. Estão relacionadas com a atitude para com a riqueza e para com os pobres. Deste ponto de vista, o episódio de Zaqueu deve ser lido com o fundo das duas passagens que lhe precedem: a do rico e a do jovem rico.

O rico negava ao pobre até as migalhas que caíam de sua mesa. Zaqueu dá a metade de seus bens aos pobres. O rico usa seus bens só para si e para seus amigos ricos que lhe podem corresponder. Zaqueu usa seus bens também para os demais, para os pobres. A atenção, como se vê, está no uso que se deve fazer das riquezas. As riquezas são iníquas quando se equiparam, subtraindo-as aos mais frágeis e empregando-as para o próprio luxo desenfreado. As riquezas deixam de ser iníquas quando são fruto do próprio trabalho e se põem a serviço dos demais e da comunidade.

Confrontar esta passagem com o episódio do jovem rico é igualmente instrutivo. Ao jovem rico Jesus diz que venda tudo o que tem e dê aos pobres (Lc 18,22). Com Zaqueu, Jesus se contenta com sua promessa de dar aos pobres a metade de seus bens. Zaqueu, em outras palavras, continua sendo rico. A tarefa que realiza lhe permite seguir sendo rico inclusive depois de ter renunciado à metade de seus pertences.

Isto retifica uma falsa impressão que se pode ter de outras passagens do Evangelho. Não é a riqueza em si que Jesus condena sem apelação, mas o uso iníquo dela. Existe salvação também para o rico! Zaqueu é a prova disto. Deus pode fazer o milagre de converter e salvar a um rico sem, necessariamente, reduzi-lo ao estado de pobreza. Uma esperança esta que Jesus não negou jamais e que inclusive alimentou, não desdenhando frequentar – Ele, o pobre – também a casa de alguns ricos e chefes militares.

É certo que Cristo jamais buscou o favor dos ricos “suavizando”, quando estava em sua companhia, as exigências de seu Evangelho. Completamente ao contrário! Zaqueu, antes de ouvir o que lhe foi dito: “Hoje chegou a salvação a esta casa”, teve que tomar uma valente decisão: dar aos pobres a metade de seu dinheiro e dos bens acumulados, reparar as fraudes cometidas em seu trabalho restituindo o quádruplo. O caso de Zaqueu se apresenta, assim, como o reflexo da conversão evangélica que é sempre e, por sua vez, conversão a Deus e aos irmãos.

O “Zaqueu” de hoje sou eu e é você, a quem Jesus chama: “Desce depressa! A salvação chegou em sua casa”.

Padre Bantu Mendonça

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