27 Jun 2010

As exigências para seguir a Jesus*

Há algumas semanas já que a liturgia vem apresentando a Carta de Paulo aos Gálatas, o documento-mor da “liberdade cristã”. Será que se entende por liberdade a mesma coisa que pensam as pessoas hoje, sobretudo os jovens? Que é liberdade para o cristão?

No Evangelho de hoje, Cristo nos diz que Seus seguidores devem largar tudo que os atrapalha para segui-Lo: coisas materiais, apegos afetivos… Paulo, na 2ª leitura, nos diz que fomos libertos por Cristo para vivermos na liberdade. Mas como combinar esta “liberdade” com a severa exigência do Evangelho?

A liberdade cristã é “liberdade de” e “liberdade para”. “Liberdade” de outros sistemas, valores, apegos. Liberdade de outros mestres e senhores, com exceção de Cristo. Não é libertinagem, pois libertinagem não é liberdade, mas sim, escravidão de veleidades, instintos, vícios, orgulho, autossuficiência. Muitos que se dizem livres são, na realidade, escravos de si mesmos, do seu egoísmo, de algum poder escuso – um grupo, uma pessoa que os tem em seu poder sem que o reconheçam. O cristão é livre à medida que pertence a Jesus como o seu único Senhor, e a Deus, Pai de Jesus e a todos.

O cristão é “livre para” o que Cristo deseja ao viver a dedicação ao irmão, o próximo. Livre para a corajosa transformação da exploração em fraternidade; para a verdade que afugenta a mentira; para tudo que o Espírito de Deus nos inspira, os frutos do Espírito: caridade, alegria, paz… E para isso, ele cumprirá a “lei única”, que contém tudo o mais que é preciso observar: amar o próximo como a si mesmo (ou seja, como se tratasse de si mesmo). Na mesma carta, Paulo chega a dizer que a liberdade consiste em nos tornarmos escravos de nossos irmãos.

O apóstolo dos gentios escreveu essa carta numa situação muito específica. Como ele era judeu, os pagãos da Galácia (Turquia), recém-convertidos a Cristo, penavam que, para ser como Paulo, eles deviam tornar-se judeus, com circuncisão e tudo. Alguns pregadores judeus lhes botavam isso na cabeça. Paulo reage a isso com veemência, explicando que não foi esse Evangelho que ele lhes tinha anunciado. O sistema da lei judaica está superado e não é preciso ser judeu para ter acesso ao povo de Deus, aprofundado por Jesus de Nazaré.

Em nosso contexto histórico hoje que significa essa liberdade apregoada pelo apóstolo Paulo? Exige a derrubada do sistema e das estruturas que impedem as pessoas de realizar a fraternidade que Deus espera e que Jesus veio inaugurar. Liberdade cristã significa liberdade em relação ao sistema de exploração que nos quer dominar. Significa dizer “não” ao sistema alienante e explorador – sustentado inclusive por formas alienantes de “religião” – colocando-nos a serviço de um novo sistema, que promova a justiça e a vida. Pois liberdade não é andar solto; é comprometer-se com o apelo de Deus e de nossa consciência.

Padre Pacheco

Comunidade Canção Nova

*Cf. Konings, J. “Liturgia Dominical”, p.428-429. Ed. Vozes. Petrópolis RJ: 2004.

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