17 out 2011

A vida não consiste em acumular riquezas

Sabemos que Lucas não é muito favorável às grandes fortunas: “É mais fácil um camelo entrar pelo olho de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus” (Lc 18,25).

O parágrafo se inicia com uma advertência séria: “Cuidado! Deveis estar vigilantes de modo a evitar toda forma de cobiça ou ambição de ser ricos, pois a verdadeira vida não depende da abundância dos bens materiais”. Na realidade, Jesus usa no presente do infinitivo o verbo exceder. A tradução seria: porque, na realidade, a vida de alguém não consiste em ter excesso de posses. A vida não consiste em acumular riquezas. E na continuação Jesus explica o porquê desta afirmação que vai fazer com que Paulo descreva a cobiça como uma forma de idolatria (Cl 3,5).

Em Eclesiástico 1,18-19 podemos ler que quem se enriquece por avareza está com os pés na cova, pois quando ele disser: “Encontrei descanso, agora comerei dos meus bens”, não sabe quando deixará tudo a outros e morrerá. Ou ainda como está no Livro dos Provérbios: “Não te glories do dia de amanhã, porque não sabes o que trará à luz” (Prov 27,1)

No Evangelho, Jesus fala a respeito de um homem cujas terras produziram uma colheita copiosa.: “Que farei, pois não tenho onde estocar semelhante riqueza?” Ele só pensou em si mesmo para viver uma vida de descanso e prazer. Como diz o apóstolo Paulo em 1Cor 15,32: “Comamos e bebamos que amanhã morreremos”. E, com a finalidade que também propõe o livro do Sirácida: “Encontrei descanso; agora comerei de meus bens” (11,19), pensa em aumentar a capacidade de seus celeiros para ter uma vida fácil, sem preocupações, para descansar, comer, beber e gozar como muitos fazem nos dias atuais.

Uma solução mais fácil seria repartir o que não coubesse nos celeiros com os mais necessitados. Ou vender a preço mais acessível o excedente. Seria uma maneira de ajudar a quem não tem e cumprir com o que Tobit recomendava a seu filho Tobias: “Dá esmola de tudo que te sobrar e não sejas avaro na esmola” (Tb 4,16).

Num caso de justiça Jesus é interpelado, mas Jesus se recusa a ser juiz. A justiça, considerada do ponto de vista humano, é falha e deixa muito a desejar. No litígio, os homens enfrentam uma guerra que mata não os corpos, mas a amizade e o amor. Por isso, Jesus dirá: “Assume uma atitude conciliadora com o teu adversário, enquanto estás no caminho, para não te acontecer que teu adversário te entregue ao juiz e o juiz ao oficial de justiça e assim, sejas lançado na prisão” (Mt 5,25).

Porém, a caridade não procura o seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade (1 Cor 13,5-6). De fato, todas as revoluções em nome da justiça, da igualdade e da liberdade têm sido extremamente cruentas e abundantes em mortes humanas. Muitas destas revoluções buscam a desforra e a vingança. Por isso, todas as encíclicas sociais da Igreja terminam com a mesma advertência: a justiça deve ser temperada pela caridade que é a que tem a última palavra nas relações sociais.

Talvez não tenhamos em conta que, num mundo tão injusto como o romano – de escravos e cidadãos diversamente classistas – Jesus nada disse a respeito. Porém, a ênfase evangélica está na justiça divina para a qual Lucas deixa a definitiva sentença, como “Ai de vós ricos, porque já tendes a vossa consolação” (Lc 6,24).

O problema da desigualdade – para não dizer péssima distribuição de riquezas, – tem como solução uma voluntária redistribuição das mesmas, de modo que os mais ricos enriqueçam os mais pobres com as riquezas que para eles sobram e para estes faltam.

A chamada esmola deve ser considerada como uma necessidade voluntária de distribuição das riquezas. Mais do que condenar os ricos devemos pregar a pobreza voluntária, desterrando a ambição como programa humano e oferecendo a simplicidade e a austeridade de vida como objetivos evangélicos e ideais sociais.

Padre Bantu Mendonça


Padre Roger Araújo

Sacerdote da Comunidade Canção Nova, jornalista e colaborador do Portal Canção Nova.

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