04 nov 2010

A misericórdia do Pai

Neste dia, no qual somos convidados a celebrar a Páscoa do Senhor com toda a Igreja, a Palavra que nos é apresentada pelo Senhor, para que possamos orientar a nossa vida, é a do Evangelho de Lucas, por meio da qual uma parábola nos é apresentada com duas atitudes profundas de misericórdia. Aliás, Lucas tem a intenção, ao escrevê-lo, de nos apresentar um Deus, revelado por Jesus, tomado de compaixão, misericórdia e amor por cada um de nós.

Esta parábola nos fala da ovelha perdida e que foi encontrada; da moeda que havia sido perdida e que  também foi encontrada. Quero também trazer a parábola do filho que se perdeu e foi acolhido pelo pai – o filho pródigo, que também faz parte das parábolas, sendo três, por mais que a Palavra de hoje nos apresente somente as duas primeiras. Em todas as três situações, sempre o fim foi de muita alegria, pois a misericórdia de Deus tem como característica a festa do reencontro do pecador com o Pai; a misericórdia alcança e sempre alcançou o miserável – entenda o miserável de forma correta e não pejorativa, ou seja, miserável é todo aquele (cada um de nós) que é necessitado de misericórdia.

Creio que é muito oportuno nos atermos à parte da parábola que nos apresenta a realidade do filho que resolve sair de casa, ou seja, o filho pródigo; porque no que diz respeito à moeda e  à ovelha, que são encontradas, o pano de fundo é a alegria e a festa realizada quando estas são encontradas; e isso acontece porque a pessoa responsável se compadece e vai ao encontro do que está perdido até encontrar, pois o amor jamais se cansa.

Na passagem do filho pródigo, o pai tinha dois filhos e um resolve sair de casa, quer ganhar o mundo; acha que está difícil continuar a viver em casa, pois acredita existir um lugar no mundo em que não encontrará dificuldades; começa aqui o seu erro e a sua frustração; aliás, é sempre longe de casa que encontraremos as verdadeiras angústias e sofrimentos – entendendo “casa” como este lugar mais íntimo em nós,  no qual só quem pode estar somos nós e Deus; o sacrário íntimo da alma.

Por essa razão, esse jovem resolve abandonar a casa e quer a herança. Herança não serve para ser dividida, mas perpetuada através da vida, vivendo, ensinando e testemunhando aquilo que recebemos enquanto virtudes e valores (a verdadeira herança). E a herança material? A estes bens deram o nome de herança; na verdade, isso não é herança. Pois herança material, filho bom não precisa e filho mau não merece!

Assim o jovem vai embora e o pai o deixa ir, pois o amor não obriga, não prende, não impõe nada, mas propõe, deixa livre. Ele vai e “quebra a cara” verdadeiramente. Arrependido, constata que nem a lavagem dos porcos ele tem para comer. É assim que o demônio nos trata e ilude: à base de mentira, nos propõe mundos e fundos; quando “caímos na dele” – na mentira, pois ele é o pai da mentira – então percebemos que nem à lavagem temos direito, pois nem isso ele tem condições de dar a alguém, pois ele é o senhor da miséria e da derrota. Ele é desgraçado, no mais profundo sentido da palavra – ele está sem a graça; ele é sem graça e quer todos afastados da graça de Deus.

Quando este rapaz cai em si, percebe que todos na casa do pai são tratados com dignidade e respeito, a começar pelos empregados, que têm pão com fartura. Então resolve voltar para casa e pedir uma  oportunidade, ao menos de ser tratado como empregado, pois – segundo ele mesmo – não pode mais voltar a ser filho, pois fez muitas coisas erradas. Para chegar em casa e poder ser tratado, ao menos, como empregado, monta um discursozinho: “Ao chegar em casa vou dizer para o meu pai: ‘Pai, pequei contra Deus e contra ti; já não merece ser trado como teu filho; trata-me como um de teus empregados’”. Ele veio decorando, pelo caminho, este discurso, pois tinha medo de não ser acolhido pelo pai por ter “pisado feio na bola”.

Quando está distante de casa do pai, mas podendo vê-la, percebe que vem alguém correndo ao seu encontro. É o pai quem vem, pois é ele quem vê o filho e não o filho quem vê o pai. O pai sabia que o filho iria voltar, pois o conhecia. Corre em direção ao menino e enche-o de beijos; aperta-o, não perguntando acerca do seu passado, mas o aperta em seus braços, abraçando aquele filho que acabara de chegar: feio, arrebentado, sujo… O pai não se importa com o estado deste, pois o ama e o amor consiste em acolher o outro a partir daquilo que ele tem de pior.

O filho começa a discorrer o discurso, e quando vai pedir ao pai que seja tratado como um dos empregados deste, este o interrompe imediatamente e manda vir todos os produtos necessários para a festa: boi para o churrasco, roupa, calçado e anel novos.

O pai não é indiferente ao que o filho fez, meus irmãos e irmãs; a questão é que o genitor coloca tudo no seu devido lugar e dá atenção àquilo que merece atenção, ou seja, ele não põe panos quentes sobre o que o filho fez, mas o coloca no seu lugar, e, sobretudo, coloca o pecado do filho também no seu devido lugar. Para dizer que o pai se interessa pelo filho e não pelo pecado, ou seja, somos amados por Deus por aquilo que somos e não por aquilo que fazemos. E o que somos? Filhos!

E o filho mais moço – porque aprendeu com o filho mais velho – acha que é amado por aquilo que faz; por isso preparou o discurso; para ser aceito. O pecado nunca terá condições de retirar o que somos essencialmente: filhos. Verdadeiramente, quem era o filho pródigo, nesta parábola, era o filho mais velho, pois viveu a vida toda pisando em cima dos manjares, por estar na casa do pai e morria constantemente de fome; o mais moço sentiu fome e teve a coragem de voltar; e porque teve a coragem de voltar, foi alimentado à base de festa, pois experimentou o amor do pai.

Não interessa onde estivermos e como estivermos; voltemos, irmãos e irmãs! Voltemos por meio do sacramento da reconciliação, pois a Ceia Eucarística está a nos esperar para que possamos reviver nos braços misericordiosos de Deus Pai.

Padre Pacheco

Comunidade Canção Nova

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