06 Mar 2010

O coração do Pai*

No Evangelho de hoje Jesus mostra a misericórdia e o amor de Deus Pai mediante a parábola do filho pródigo.

O evangelista começa por assinalar o motivo dela: “Acercavam-se de Jesus os publicanos e pecadores para ouvi-lo. E os fariseus e os escribas murmuravam entre eles: esse acolhe os pecadores e come com eles. Então Jesus disse-lhes esta parábola” [a do filho pródigo]. Página sublime da literatura bíblica, na qual Cristo faz uma radiografia do coração de Deus.

A finalidade, pois, da parábola é mostrar a misericórdia de Deus; assim justifica Jesus a Sua conduta com os marginalizados da salvação. O desenvolvimento da parábola tem duas partes diferenciadas, sendo protagonista da primeira o filho mais novo, e o da segunda o filho mais velho. O pai de ambos, que é mencionado quatorze vezes, completa o trio de protagonistas e intervém relevantemente numa e noutra parte.

A parábola é uma síntese da história pessoal do crente, de cada um de nós, e descreve um processo psicológico de ida e volta, fuga e retorno. O filho infiel reflete uma situação humana, o retrato do homem pecador que se afasta de Deus e logo volta para Ele: “Pai, pequei contra o céu e contra ti; já não mereço ser chamar-me teu filho”. E o pai recebeu-o com imensa alegria, sem o recriminar por sua conduta, tratando-o como filho a quem restabelece nessa condição, até o ponto de organizar um banquete para celebrar o seu regresso.

No banquete, que celebra o regresso e a reconciliação do filho perdido, podemos ver uma referência Eucarística, pois a Eucaristia é o sacramento festivo que celebra o banquete fraterno dos irmãos reconciliados com Deus e entre si.

Mas eis que agora intervém o filho mais velho que, ao voltar do campo, se nega a participar da  comemoração. É a segunda parte na parábola, que poderia parecer supérflua porque a primeira tem sentido completo e termina a ação narrada. Por que as juntou Jesus? Para responder à situação criada. São os escribas e fariseus, críticos da conduta do Senhor, que falam pela boca do irmão mais velho, que se mostra ressentido e chama de injusto o seu pai.

Tal protesto nascia da inveja, do egoísmo e da intransigência, e não do sentido da justiça e da honradez. Apesar de ser o filho bom, mostra-se mais repugnante que o filho mau. Embora pareça ter razão, desempenha, não obstante, um papel antipático, a ponto de reclamar ao pai um cabrito, quando tudo o que há em casa é seu.

Mas não insistamos nele e nos fariseus, porque todos podemos nos ver refletidos também nele. O filho mais velho representa a pessoa irrepreensível, mas puritana; cumpridora, mas dura e insensível; fiel, mas sem amor. A sua obediência à lei e a sua fidelidade ao culto carecem de espírito e de amor. E sem amor, como diz São Paulo, de nada valem todas as outras supostas virtudes.

Como os observantes fariseus, talvez com boa vontade, mas com estreiteza de vista, há quem faça uma ideia de Deus à sua medida mesquinha. Mas a lição e conduta de Jesus nos dizem que  essa visão não corresponde à realidade. Deus oferece sempre a oportunidade de um perdão, que regenera a pessoa; e quando ele perdoa rasga a ficha do arquivo e começa um historial novo.

A parábola do filho pródigo é a encenação da nossa situação e da misericórdia de Deus, significado do pai; é um cântico ao amor indulgente de Deus; é a síntese da Boa Nova de Nosso Senhor Jesus Cristo. Assim é Deus, tão bom, tão compreensivo, tão indulgente com quem se arrepende, tão cheio de misericórdia e tão transbordante de amor como o pai que se alegra com o regresso do seu filho.

Padre Pacheco

Comunidade Canção Nova

*Cf.  B. CABALLERO. A Palavra de cada dia. p. 125-126. Paulus: 2000.

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